​Conexão Sudaca: O superlativo Maxi

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Por Bruno de Oliveira*

Há certos dias em que improváveis alinhamentos cósmicos refletem no organismo humano. Em estas raras ocasiões, o mais ordinário dos tipos desperta envolvido pela aura dos predestinados e pode realizar, a despeito de todos os prognósticos negativos, façanhas passíveis de fazer brotar da fronte do incrédulo as cinco mil gotas do pavor.

No último domingo, Maxi Rodríguez, camisa onze do Newell’s Old Boys, acordou pela manhã em sintonia com as vibrações que emanam vez ou outra, como disse, do campo celestial. Distinto, ainda mais. Naquele dia, se quisesse, poderia ter invertido o fluxo do Rio Paraná, que margeia a cidade argentina de Rosario, mas preferiu, caprichoso, dar cabo de algo muito maior para ele e outros milhões.

Já iam decorridos oito anos desde o último grito de vitória diante do arquirrival Central. Cinco derrotas e cinco empates pairavam sobre a torcida rubro-negra da mesma forma que almas atormentadas pelo trágico desfecho que as finaram perseguem o sono de seus algozes. Um novo revés, nestas circunstâncias, significaria continuar de joelhos por mais um ano na estrada tingida de azul e ouro que desemboca no abismo da humilhação.

O Gigante de Arroyito naquela tarde erguia-se da terra mais uma vez com os contornos de um vulcão que expele loucura e hostilidade, e do seu interior jorrou pura lava e sentimento quando as onze camisetas listradas entraram em campo. Maxi e mais dez ocupavam metade da cancha aos olhos dos mortais, mas, sob a perspectiva dos deuses do futebol, que àquela altura já dimensionavam o que estaria por vir, o universo seria quase nada para comportar a grandeza do NOB e sua estrela maior.

A dura batalha travada a sangue e carrinho ao longo dos noventa minutos regulamentares dava forma a um empate que, àquela instância, já era visto como um bom desfecho para o quadro local que fazia de tudo para manter a escrita contra o adversário histórico. A vontade divina, entretanto, gerou um escanteio a favor da Lepra nos estertores da partida e, segundos a seguir, também uma das passagens mais mágicas e folclóricas da história do futebol.

“BEM-AVENTURADOS AQUELES QUE TESTEMUNHARAM MAXI RODRÍGUEZ COBRAR O TIRO DE CANTO, CORRER PARA A ÁREA E – OBRIGADO, SENHOR – MARCAR O GOL QUE DEU AO NEWELL’S A VITÓRIA CONTRA SEU RIVAL DEPOIS DE TANTOS E TANTOS ANOS.”

Mais do que quebrar o jejum vestindo a camisa de seus amores, é bom que se diga, o jogador foi capaz de trazer uma anedota para o campo da realidade e se fez cumprir uma antiga profecia, na qual um homem predestinado conseguiria, um dia, anotar um tento após, ele mesmo, cobrar o corner. E o momento foi aquela fração de segundo no tempo extra requerido pelo árbitro.

Maxi correu para a bola enquanto a Via-láctea se ajustava para ficar compreendida entre dois pontos como nunca antes. Ao toque na bola, o sertão virou mar. Uma onda vinda do Pacífico beijava pela primeira vez os pés da Cordilheira quando Mauro Formica rebotou a pelota, de cabeça, para o bico da pequena área, de onde veio o arremate do Escolhido, em arco, para beijar as redes canalhas.

Só não houve o mais ensurdecedor dos silêncios porque o nome de Maxi era gritado pelo escrete do velho Newell’s como se fosse o maior do superlativos. E naquele momento o era, de fato, saindo da garganta dos milhares de torcedores que, uma vez banidos de preencher o espaço de visitante no clássico, tomavam as ruas em júbilo a uma nova era onde quem manda é o quadro do Parque Independência.

Aquele gol corroeu nervos e minou as estruturas do Central como se fosse aquele mal que tem nome mas não tem cura, mas que, visto pela retina difusa do canalha, possui um brilho intenso nas cores vermelho e preto.

As pessoas se entreolharam como se não conseguissem mais reconhecerem umas às outras. O Gordo, aquele, sentiu o lado esquerdo formigar e se despediu do mais queridos à distância e mentalmente, vislumbrando os acenos de Fontanarrosa e Guevara lá do outro lado. Chacho Coudet, o comandante do clube mandante, seguiu em seu banco até o estádio ser apenas concreto e lembranças, sozinho, fumando um cigarro e ocultando no peito não apenas a mão vazia, mas alguma coisa porca e vergonhosa.

Bruno de Oliveira, jornalista, é parceiro da casa e já participou de vários podcasts na programação.

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