A auto-entrevista

25/09/2017 | por: central3

Por Luiz Felipe de Carvalho

(Queria escrever um texto sobre os Beatles. Mas não sabia como começar, já que não há nada de novo para falar sobre eles. Deve ser a banda/artista com mais palavras escritas na história do jornalismo. Por isso resolvi falar sobre o que eles representaram pra mim, como os conheci, quais são minhas preferências, coisas assim. Para isso fiz uma auto-entrevista – que eu espero que não seja auto-indulgente)

Qual foi a primeira vez que você ouviu Beatles?

R: A primeira vez que ouvi Beatles eu provavelmente estava na barriga da minha mãe. Não vale como audição, eu acho, embora alguns cientistas digam que vale. Depois aconteceu uma triste coincidência: nasci em cinco de setembro de 1980, e John Lennon foi assassinado pouco mais de dois meses depois, dia oito de dezembro. Meu pai, beatlemaníaco de amarrar no pé da mesa, ficou muito tempo sem ouvir nada dos rapazotes por conta disso. Ou seja, houve um “silêncio beatle” por um bom tempo em minha casa. Inclusive ele tinha acabado de comprar o LP que o John tinha acabado de lançar, o Double Fantasy. Meu pai voltou a ouvir Beatles, mas esse disco solo do John nunca mais foi ouvido, e está até hoje aqui em casa, quase intacto.

Que trágico, menino! E durante sua infância, como foi o contato com a banda?

R: Quando o trauma da morte de seu ídolo passou, meu pai voltou a colocar os bolachões na vitrola de casa – intercalados com os Roberto Carlos da minha mãe. Mas criança sabe como é, tem aquele gosto meio difuso. Eu ouvia Trem da Alegria, Menudos (mate-me por favor!) e Balão Mágico, e estas eram minhas preferências. Mas não ficava imune aos sabores de “Yellow Submarine”, “Maxwell´s Silver Hammer” e outras canções alegrinhas que os Beatles sempre fizeram. Me chamavam a atenção, mas a verdade é que eu não ligava muito.

E durante a adolescência, como foi?

R: Bom, se eu falei que criança tem um gosto difuso, no adolescente isso chega às raias da patologia. É clássica uma fita cassete que eu e meu irmão tínhamos, onde gravávamos músicas que tocavam no rádio (nascidos a partir dos anos 1990 não devem saber o que é isso), em que rolava “Nuvem de lágrimas”, com Chitãozinho e Xororó e Fafá de Belém, seguida por “Paradise city”, do Guns´n´Roses. É uma fase de experimentação, em que o sujeitinho ainda está formatando seus gostos, para decidir, enfim, aquilo de que gosta de verdade. Tudo ainda é possível, o universo está aberto, e há tudo de bom e de ruim à disposição. Há quem cresça e continue gostando de tudo – o que me parece ser o mesmo que não gostar de nada. Não foi meu caso, e acho que sei qual foi a chave da mudança.

Entendi, você me deu a deixa para uma pergunta. Lá vai: qual foi a chave dessa mudança?

R: Você faz parecer que é tudo premeditado, como se eu mesmo esquematizasse perguntas e respostas. Enfim. Estudava de manhã, e passava algumas tardes sozinho em casa. Comecei a pegar uns discos para ouvir. Na verdade comecei a pegar UM disco pra ouvir: Help!, o LP dos Beatles lançado em 1965. Não sei o que me fez pegar justamente aquele disco branco, com quatro jovens adultos fazendo gestos estranhos na capa, e também não sei porque fiquei tanto tempo ouvindo só ele. Mas sei que aquilo era muito bom. Como eu tinha ficado tanto tempo com aquele tesouro escondido sob meus bigodes ridículos de adolescente? Durante algum tempo, não é que eu gostasse dos Beatles: eu gostava do Help!. Me lembro de ir ao Carrefour com minha mãe e pedir o cd de presente (tempos ótimos em que dava pra comprar cd em supermercado). Ela disse que não tinha dinheiro, eu como bom menino me resignei, mas pouco depois vi o cd dentro do nosso carrinho, para minha total alegria. Agora eu podia ouvir Help! no meu quarto! Não, baixar a música não era uma opção.

E quanto aos outros discos?

R: Depois de um tempo me aventurei nos outros discos. Será que seria tudo tão bom? Não me lembro qual foi o segundo que peguei. Mas me lembro do assombro ao perceber que cada disco era melhor do que o outro. Chego a salivar só de imaginar a delícia de um jovem de quinze anos ouvindo pela primeira vez o Rubber Soul, o Revolver, o Álbum Branco e todos os outros clássicos do quarteto. Eita inveja daquele menino. A partir de então fui me especializando, entendendo a ordem cronológica dos lançamentos, lendo livros, vendo documentários e me tornando aos poucos, eu também, um beatlemaníaco. Tal qual meu pai.

Agora vamos fazer um ping-pong. Beatle preferido?

R: Se ping-pong pressupõe respostas curtas, saiba que eu sou verborrágico. A resposta é Johnn Lennon. Eu sei, é chavão, deve ser a escolha da maioria, mas para mim o John é praticamente um amigo, não só um ídolo. Deve ser por conta de sua embasbacante sinceridade, que o traz tão próximo de nós, e dá essa sensação de intimidade. Apesar de toda a luta pela paz e ativismo social, John sempre se colocou como um ser humano cheio de falhas e imperfeições. Igual a todos nós. Quer dizer, igual não, porque nenhum de nós compôs “Don´t let me down”.

Disco preferido?

R: Rubber Soul. No momento em que a banda começava a fazer a transição que a afastaria completamente dos palcos para se dedicar apenas aos discos em estúdio, saiu essa obra-prima que já trazia inovações, como o uso da cítara, mas ainda tinha o frescor dos anos iniciais. Os Beatles continuariam sendo geniais, mas aqui eles atingiram seu ápice. Não por acaso, é um dos períodos mais férteis de Lennon, que contribuiu com Nowhere Man, Norwegian Wood e In My Life, só pra citar três de suas maiores canções. Vale dizer, especialemente a quem não é fã dos Beatles que nessa fase a parceria Lennon/McCartney já não era exatamente uma parceria. Cada um fazia suas músicas em separado, e depois mostrava ao parceiro, que em geral fazia no máximo pequenas mudanças ou dava alguns pitacos. Uma curiosidade do disco é que aqui está o primeiro crédito de Ringo como compositor, ganhando autoria junto com Lennon e McCartney na country What Goes On.

Estranho sua resposta não ser Sgt. Pepper´s. Acha que é superestimado?

R: Acho que sua importância é enorme, mas passa além da música. Falando estritamente de música, talvez ele não fique nem entre meus cinco álbuns preferidos da banda. Talvez se “Penny Lane” e “Strawberry fields forever” (que fizeram parte das mesmas sessões de gravação mas saíram em single e não fizeram parte do LP) fizessem parte do disco, minha resposta seria outra.

Qual sua música preferida?

R: Embora seja algo sempre em mutação, tenho “Hey Jude” como minha resposta-padrão. Uma canção de Paul McCartney, para deixar provado que não sou um lennoniano radical. Mas poderia citar também “And your bird can sing”, “Norwegian Wood”, “No reply”, “Penny Lane”, “While my guitar gently weeps”, “Please please me”, “You´ve got to hide your love away”, etc.

Os Beatles seriam tão grandes sem Ringo Starr?

R: Qualquer “se” na história dos Beatles seria paradoxal, já que a história está escrita, e eles se tornaram tão grandes porque tudo aconteceu do jeito que aconteceu. Mas se for para conjecturar, acredito que sim, os Beatles poderiam ser tão grandes mesmo com outro baterista. O que não significa que eu não ame o Ringo.

Os Beatles seriam tão grandes sem George Harrison?

R: Aí o buraco, ou o paradoxo, é mais embaixo. Os Beatles perderiam canções preciosas de seu catálogo, além de grandes solos de guitarra. George também sempre teve tino de produtor, e contribuiu muito para o som da banda. Então acho que minha resposta seria não. E por favor, nem precisa perguntar se os Beatles seriam tão grandes sem Lennon ou sem McCartney. A resposta é um retumbante não. Nããããããão!

Ok, você estragou minhas próximas duas perguntas. Então diga-me, Yoko Ono é a culpada pela separação dos Beatles?

R: Não.

Vejo que a verborragia se foi. Poderia explicar melhor essa resposta?

R: Não, ela não é a culpada pela separação dos Beatles.

Quem é culpado pela separação dos Beatles?

R: Os Beatles.

Certo, certo. Bom, acho melhor encerrarmos essa entrevista. Algum último comentário?

R: Os Beatles não precisam ser a banda favorita de ninguém. Mas ouvir (quase) qualquer coisa que foi produzida de 1970 pra cá e não ouvir Beatles é como pegar um filme pela metade. Você pode até se divertir, mas não vai entender direito o que levou aqueles personagens a agirem daquele jeito.


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