Chechênia não tão distante

10/05/2017 | por: Leandro Iamin

*Por Miguel Rios

Pessoas são mortas e torturadas na Chechênia. Há campos de concentração para acumulá-las e submetê-las a tais crimes. Não são assassinadas por conspirarem contra o governo, nem por tramarem um genocídio da população, ou cometerem agressões a indivíduos. Mas por serem homossexuais. O erro imperdoável é esse. A sentença se dá por isso. A legalização das truculências é por essa condição. O Estado aprova e executa, a sociedade chechena aplaude, o mundo silencia.

Os EUA, que se indignam com outras atrocidades e se autoelegeram a polícia internacional, está imóvel. Seus aliados, que apoiam e justificam qualquer ataque a países do Oriente Médio colocando na conta do terrorismo, se calam. Sobra para poucas ONGs denunciarem e pedirem providências. A imprensa pouco comenta, pouco investiga, menos ainda se interessa. Não se aprova. Mas reagir não se reage.

Não é definitivo, mas é tendência. Quando uma minoria oprimida sofre uma grande agressão, a deslegitimação da violência vem a reboque. O governo checheno avisa que não existem “pessoas desse tipo no país”, que se houvesse “a família daria fim a elas”. Tem quem defenda que são humanos e, portanto, não é necessário frisar a sexualidade, nítida tentativa de apagamento do real motivo e de reconhecimento de que uma violência específica existe. As hegemonias sociais é que despertam emoção. Massacres na Europa que matam vários europeus têm centenas de holofotes em cima. Massacres na África que matam milhares de africanos sem cessar, uma matéria aqui e ali para constar.

Pior ainda é o silêncio. Algum bom samaritano, homem de bem, cristão praticante, generoso e solidário, se perguntou por qual motivo Donald Trump não envia suas tropas para láç Algum bom samaritano, homem de bem, cristão praticante, generoso e solidário, quer que os EUA invadam a Chechênia para salvar os torturados assim como quis para salvar os sírios após o ataque com gás sarín? Algum bom samaritano, homem de bem, cristão praticante, generoso e solidário, se importa com LGBTs? Se sim, onde está esse homem que não forma um grupo, que não tenta montar uma rede, se aliar a quem se indigna como ele e fazer uma corrente maior e maior?

Tem bom samaritano, homem de bem, cristão praticante, generoso e solidário, orgulhoso de si, daqueles que se pronunciam diante de temas assim, torce para que mate todos mesmo. Talvez não assuma publicamente, mas torce. No mínimo, não liga. Acredita tratar-se de limpeza. Trata-se de não pessoas. Gente que não faz falta. Gente que incomoda, que é melhor sem para a Terra atender aos desígnios divinos.

O homem de bem que se uniu a outros e esmurraram um arquiteto no Paraná, em uma festa, até desfigurá-lo. Ou outros homens de bem que perturbaram, xingaram, bateram e expulsaram do condomínio, no Rio, um casal sexagenário, sem deixá-los retornar com ameaças e apreensão das chaves do apartamento.

Esse bom homem de bem não difere muito do homem de bem checheno. O que concorda com seu governo. Por relatos coletados de integrantes da comunidade LGBT chechena um homem foi torturado por duas semanas. “Então convocaram seus pais e seus irmãos para que viesse visita-lo e disseram: ‘Seu filho é homossexual’. A família então retrucou: ‘É a nossa família, então nós faremos’. A família o levou para a floresta, mataram e enterraram ele lá mesmo, sem sequer lhe dar um funeral.”

Morto com menos respeito que a um animal agonizante. Morto para limpar a honra dos parentes. Não muito diferente do que pensam por aqui pais e mães: “Prefiro ver meu filho enterrado que agarrado com outro homem”, “Viadagem é falta de surra”, “Na minha família não tem essa vergonha”…

O ódio lgbtfóbico é sem fronteiras e se assemelha em demasia. Nem sempre é assassino, mas sempre é um estímulo a quem quer assassinar. Não faltam garantias de respeito e aceitação, mas desde que seja na casa vizinha. Não faltam apoio e jura de amizade, desde que o afeto seja reprimido. Raros casos em que é total, em que se despe de cintos afivelados.

LGBTfobia é opressão estrutural. Como tal, é repassada de geração a geração em uma mecânica complexa. Quase nunca, alguém senta com você quando criança e diz: “Viado é pra matar. Tem que bater até ele morrer”. É pela piada que coloca o gay inferior ao hétero e merecedor de agressão: “Bicha não é violentada. Bicha é realizada”. Pelo riso comum que se vincula à ideia de que associar um hétero a algum comportamento gay é ridicularizá-lo. Pelo bullying na escola que mira, com ferocidade e constância, no menino mais feminino e o usa como referência de desonra. No religioso que crucifica como o pior dos pecados. Todo um arsenal ideológico de mísseis disparados sem cessar a todo instante, de todos os lados.

O bombardeio convence, se internaliza e se solidifica. Desintoxicar-se do caldo de ódio é trabalho pesado, esforço contínuo. Até mesmo LGBTs o carregam. Criados nas mesmas sociedades, não escapam do auto-ódio e dos insultos a seus pares. Primeiro passo para se livrar é reconhecer-se envenenado. Segundo passo é avaliar o tamanho da infecção. Terceiro passo é empatia, que é um sentimento humano e qualquer pessoa pode praticá-la. Daí, ir lutando contra si para manter os vermes no porão onde é o lugar deles, caso não consiga exterminá-los de vez. De pronto, é quase impossível.

Quanto tempo teremos para alcançar? E quem sabe? Nessa geopolítica onde a extrema-direita e sua ordem de exclusão a pessoas que considera impuras e problemáticas só ganha vigor e adesões, talvez muitos séculos mais para recuperar o século 21. Um século onde ainda se defende que a Terra é plana, Adão e Eva deram origem à humanidade, índio e quilombola não merecem nada e que trabalhador rural pode ser pago com casa e comida.

Há possibilidades de que possamos voltar a um tempo em que nem mais a introdução cínica “Não tenho nada contra gays, mas…” seja dita, que se passar por contemporâneo seja desnecessário, que o ódio seja liberado, que caçar e matar sejam práticas aprovadas. Como na Chechênia: “Nós sempre fomos perseguidos. Mas nunca foi assim. Agora eles prendem todo mundo, matam pessoas, fazem o que querem, pois sabem que não serão repreendidos por nada já que a ordem de ‘limpar a nação’ dos gays veio de cima”.

 

*Miguel Rios é jornalista, recifense, militante LGBT e filho de Oxalá.

 

 


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