Cinema e Teatro se fundem em “Deserto”

02/10/2017 | por: Leandro Iamin

*Por Murilo Costa

Esta semana pode ser a última oportunidade para quem pretende assistir ao filme “Deserto”, estreia na direção do ator Guilherme Weber – conhecido do grande público por seu trabalho em novelas da Rede Globo. O filme teve uma passagem muito rápida pelas telonas; após menos de 15 dias em circuito restrito, o longa foi relegado a apenas uma sala de cinema e ao mais ingrato dos horários – a primeira sessão do dia. Mas não é como se essa trajetória viesse como uma grande surpresa para Gulherme Weber. Talvez já fosse até mesmo esperada. Deserto traz dentro de si um discurso importante sobre o momento atual da arte em nosso país e diz muito sobre a situação em que o próprio filme se viu tão pouco tempo após seu lançamento.

A história começa remetendo a uma fórmula clássica já apresentada antes no teatro e nos cinemas. Uma companhia errante de atores passa de cidade em cidade apresentando seu trabalho, mas é evidente a decadência em que todos ali se encontram. Os públicos são cada vez menores, e o desânimo geral com a situação só aumenta. É o personagem de Lima Duarte, o velho, quem ocupa o posto de líder e capitão do grupo, sempre buscando motivar os colegas e proferindo discursos sobre a importância de prosseguir com a arte a qualquer custo. É evidente o paralelo com a situação atual do Brasil. O personagem expressa sua insatisfação de forma clama: num país como esse, quem ainda se importa com arte?

Talvez apenas os rejeitados, os párias e os excluídos. São eles que formam a companhia de artistas que acaba chegando a uma cidade deserta, onde decidem passar a noite e fazer uma pausa em sua peregrinação. A descrença na utilidade ou razão do próprio ofício criam um ambiente geral de insatisfação. Em meio ao vilarejo fantasma e com um clima de desolação no ar, uma reviravolta brusca interromperá o caminho natural do grupo e jogará a história em uma nova e ousada direção. Ao invés da narrativa da companhia errante – pano de fundo já usado no clássico absoluto de Ingmar Bergman, “O Sétimo Selo”, por exemplo – Weber decide fixar seus personagens na cidade abandonada que deveria ser apenas mais uma passagem. Cansados demais para prosseguir em busca de público ou de aceitação por parte da sociedade, eles decidem fundar ali mesmo uma comunidade própria e reinventarem a si mesmos. Em um sorteio, são definidos os papéis que cada um deles terá nesse novo mundo. Eles estão libertos do público, mas não de suas sinas de intérpretes.

A imposição de papéis a serem representados – ou, mais que isso, vividos plenamente, em tempo integral – por todos em suas casas logo acaba gerando situações extremas. Os conflitos entre a personalidade que eles deveriam assumir e suas próprias vontades e ambições pessoais acabam trazendo à tona os aspectos mais sombrios de cada um.

Há um jogo de contrastes curioso proposto por Guilherme Weber em “Deserto” que afasta o filme do lugar comum e o torna um ponto bastante fora da curva em nossa cinematografia. O texto, apesar de inspirado em um romance de realismo fantástico, é transposto para a tela de forma teatral, cheio de citações e com discursos pouco naturalistas; A fotografia é um destaque a parte, trabalhando as imagens com esmero, precisão e estética de cinema. Já o mise-en-scène, por sua vez, também se aproxima do teatral; em alguns momentos é fácil imaginar as cenas sendo representadas em um palco. Mas o cenário da cidade é construído de maneira bastante cuidadosa e cinematográfica.

A mistura entre os elementos funciona, estabelecendo um drama fantástico em um mundo próprio, repleto de subtexto e de interpretações subjetivas. Guilherme Weber foge do comum de todas as maneiras, escapando da tendência dos atores-diretores a um certo desprezo pela linguagem ou estética do filme em benefício das interpretações de seu elenco. Algo que Selton Mello também fez recentemente em “O filme da minha vida”. Para isso, ambos contaram com parceiros de muito talento assinando a fotografia; Walter Carvalho, no caso de Selton, dispensa apresentações, e Rui Paços – fotógrafo de ”Deserto” – tem uma carreira consistente no cinema português, tendo sido responsável por alguns dos maiores sucessos de crítica do país, caso de “Tabu”.

O jogo proposto por Weber é difícil para o público em geral, e isso pode ter ajudado a carreira do filme a naufragar rapidamente em termos de bilheteria. Mas é algo previsto pelas próprias personagens. Numa cena de pura metalinguagem, uma delas encara a câmera, quebrando a quarta parede e questionando: quem assistiria a seu espetáculo? Quem se interessaria por aquela história? Estavam interpretando para ninguém os seus novos papéis cotidianos. “A vida comum não vale para o cinema, não vale o ingresso. Algo diferente tem que acontecer”, afirma a personagem. E pode-se dizer que “Deserto” é tudo, menos comum.

Em todo o filme há a discussão sobre a arte e sua importância. Há até uma metáfora com uma privada que permeia vários diálogos. Um dos personagens se apega demais a um vaso sanitário que encontra na cidade abandonada. Após tantas peregrinações de canto em canto, dormindo ao relento e “cagando no mato”, ele tem uma epifania ao ter novamente para si uma privada. Emociona-se com a suavidade da louça, a civilidade do ato de sentar-se num objeto tão delicado para um ato puramente animal como o de defecar. É algo que nos diferencia dos bichos. A privada, e também a arte. São formas de resistência contra os instintos animais. Uma resistência que tem sofrido, sendo atacada de todas as formas. A onda de conservadorismo que assola o país tem mirado cada vez mais o setor artístico, num revanchismo infantil contra a classe artística e suas pautas geralmente de esquerda. Em pleno 2017, volta-se a falar em “arte degenerada” e em censura a obras e espetáculos de arte. As linhas de financiamento e incentivo à produção se veem ameaçadas por tratativas do Congresso, com artistas precisando montar uma caravana pra interceder junto aos políticos. E as salas que exibem a produção nacional seguem esvaziadas, em um ano atípico que quebra uma longa sequência de bons resultados de nosso cinema nas bilheterias. Em meio a esse cenário desolador, Deserto é uma escolha de luta, assim como a de seus personagens. Seguir representando, mesmo que seja para uma sala de cinema vazia, na sessão das 13h.

“A arte é a única possibilidade que o homem tem de viver além da necessidade”.

 

*Murilo Costa é cinéfilo, cineasta e integrante da bancada do Central Cine Brasil.


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