Corpo Delito (2017)

14/04/2017 | por: Central 3

*por Murilo Costa

O longa de estreia do diretor Pedro Rocha transita numa linha tênue entre a ficção e o documentário. Vemos a história de Ivan, cerca de 30 anos, como uma mosca na parede, numa proximidade inerte que chega a incomodar, numa linguagem que bebe diretamente da fonte do Cinema Direto. Porém, também há um trabalho forte de roteiro – conduzido por Diego Hoefel – que leva os personagens reais a encararem situações sugeridas e previamente pensadas. Por mais que isso possa soar estranho, tal recurso não tira em nenhum momento o grau de realismo do filme e a sensação de estar assistindo a algo muito autêntico.

OUÇA AQUI O CENTRAL CINE BRASIL #50, QUE ENTREVISTOU O DIRETOR PEDRO ROCHA

“Corpo Delito”é ambientado no Ceará, com suas particularidades geográficas e sociais. Mas, ao mesmo tempo, tem um eco muito forte do Brasil como um todo. Para um paulista desavisado, por exemplo, é possível assistir ao filme crendo que se passa em uma comunidade qualquer da cidade, e se pegar refletindo sobre essa realidade “paralela”. Sobre esse outro Brasil que não estamos acostumados a ver, esse Brasil periférico que não tem voz.

Ivan está em regime de semi-liberdade, utilizando uma tornozeleira eletrônica e com restrições em seu ir e vir. Precisa dormir todos os dias em casa, prestar contas de onde estava, o que fez, com quem, por quê. Logo de início um advogado faz crer que Ivan está recebendo um grande privilégio, e até dá motivos convincentes para isso. Ele pode dormir em sua própria casa ao invés de dividir uma cela – onde caberiam 6 presos – com outras 12 pessoas. Mas fica claro desde o princípio que a percepção de Ivan sobre essa pretensa liberdade é bastante diferente da visão que pretendem que ele tenha.

Temos um protagonista inconformado com sua vida cheia de restrições. Acossado por esse estado de semi-liberdade, de estar preso e solto ao mesmo tempo, vigiado o tempo todo, devendo satisfações de cada passo. E é nessa contradição que o filme se constrói, curiosamente fazendo um retrato contemplativo e sem emitir juízos sobre uma pessoa que está sendo julgada o tempo todo. Seja nas audiências com o juiz, em encontros com defensores,a advogados, ou até mesmo nas conversas em casa com sua companheira ou com o amigo, há sempre uma opinião de fora sobre o que ele deveria estar fazendo. Por que não procura um emprego? Por que não sossega? Por que não quebra a tornozeleira? Porque está se deixando submeter a isso? Ou por que não pode se submeter?

Em meio a todos esses questionamentos, Ivan só quer levar sua vida simples de sempre: tomar uma com os amigos, ir pro forró, fumar um baseado, dar umas voltas, conversar, sair na rua, ver seu Corinthians jogar. Há uma recusa em se submeter ao sistema, ao que esperam dele – sossegar, arrumar um emprego, ser responsável, cumprir tudo que manda o juiz. Curioso é pensar que muitos filmes de ficção usam essa premissa como algo positivo, o jovem que não se encaixa no que esperam dele e precisa de sua liberdade. O hedonismo e a busca de uma geração que não se acomoda no lugar comum. Mas são narrativas focadas na classe média ou média alta. Esses jovens podem ambicionar uma vida diferente. Livre. É como se o jovem de periferia não tivesse essa escolha. Sua vida logo está delineada em tons muito precisos, claro e escuro, caminho certo e caminho errado. Para traçar uma trajetória “de bem”, há uma rota muito estreia a se seguir; estudar, trabalhar, obedecer a lei, batalhar. Meritocracia.

Assistir a Corpo Delito incomoda porque o longa nos faz questionar o protagonista e suas escolhas, e logo percebemos quão carregados de preconceitos e lugares comuns podem estar sendo nossas opiniões. Queremos que ele siga um caminho que nós mesmos, muitas vezes, nos recusamos a seguir. Ao final, fica uma reflexão importante: quão livre é Ivan em seu regime de semi-liberdade? E quão livre era Ivan antes de estar preso? Quanto de sua vida já estava delineada por sua condição social?

“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.” 

*Murilo Costa é cinéfilo, cineasta e integrante da bancada do Central Cine Brasil.


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