Já cascavilhou sua LGBTfobia hoje?

13/09/2017 | por: Leandro Iamin

*Por Miguel Rios

LGBTfobia não sai do seu corpo com laxante. Não se prova inocência usando amizades como álibi. Ela persiste em pequenas doses e transpira aqui e ali em pequenas frases e atitudes.

Quantas vezes você já desistiu de uma roupa por achar que ela era de viado? Quantas vezes consertou sua munheca por achar que ela girava demais? Quantas vezes engrossou a voz para ser mais másculo? Quantas vezes caminhou com passos mais duros para demonstrar macheza?

As perguntas acima valem inclusive para caras gays e bis. Valem para caras trans. As mulheres adaptem para atitudes tidas como femininas.

E aí? Se pegaram em lembranças? Se flagraram em fatos recentes?

Esse que escreve aqui tem inúmeros flashes de cenas de sua vida onde praticou coisas do tipo. Já me policiei incontáveis vezes. Acreditava que me corrigia, que me fazia melhor, um homem de verdade. Meu ideal era ser sem trejeitos, sem pintas, sem rebolados, sem parecer gay. Na verdade, me adequava.

Era um rolo compressor heteronormativo chamado sociedade que me forçava a caber em um molde. Daqueles milimetricamente bem desenhados e precisos. Nenhum fio de cabelo fora do projeto homem como homem deve ser.
Eu acreditava. Era ordem e regra de todos os lados. O projeto que me foi vendido como o único possível, o aceitável, o não atacável. Os outros eram execráveis, dignos de perseguição, de chacota, de serem culpados pelas violências sofridas.

Já me justifiquei tanto sofrimentos alheios com “quem manda ser tão viado?”. Tudo o que é de viado é reprovável. Aprendemos ou não que é assim? Saiba que é homofobia. Por que o que é de viado é indigno? Por que desonra? Porque disseram que é assim.

Um passado que me envergonha , mas não quero apagar. Preciso dele, do antigo eu, para me demolir, me catar e me jogar no lixo, me rever, me reconstruir melhor, mas sempre disposto a meter a marreta de novo.

Aplicar em si a menêutica socrática é necessário e saudável. Questionar-se, questionar-se e questionar-se sem medo de exaustão. Questionar-se para não cair na armadilha comum de resolver tudo no raso e se inocentar. “Ah! Mas tudo é preconceito! Tudo é LGBTfobia!”

É. Porque sempre foi. Porque não se livra de uma opressão estrutural apenas acenando e sorrindo para a vizinha lésbica e para a cabeleireira trans.

Sempre se fez piada e humilhação pública com gays, lésbicas, bis e trans porque precisavam ridicularizar para alçar a heterossexualidade cisgênera ao posto de normalidade e obra divina. Por muito tempo foi socialmente aceito e incentivado. Execramos e enxovalhamos o que é o errado, né isso? O resultado: pais e mães que não se cansavam de repetir que preferiam ter filhos mortos a vê-los na viadagem ou na sapatagem, bullying feroz na escola, dificuldade em conseguir emprego caso a sexualidade não estivesse em um armário, suicídios, afetos ocultos, traumas e infelicidade.

Daí LGBTfobia é infecção aguda que não se trata com mero antibiótico. É mal crônico. Precisa de tratamento lento e observação contínua.

Saiba que haverá recaídas. Saiba que haverá erros. Que sua fala não será pura. Saiba que você pode, e até deve, corrigir equívocos alheios. Mas é bom saber de quem vêm e porque vêm.

Há quem erre por ignorância, quem erre por estar no processo de revisão e aprendizagem. Há quem erre por acreditar estar imune e limpinho justamente por “ter amigos gays”. Esses, dá para mudar e melhorar.

Há quem erre por total escrotice, porque considera o erro acerto. Nem todo mundo é Bolsonaro ou Malafaia, mas tem quem esteja na mesma prateleira. Desses, manter distância.

Diferenciar é preciso. E dá trabalho. E, às vezes, cansa. Mas lembre-se que o mundo não vai mudar de uma vez, não vai cair do meteoro da justiça social e transformar as mentalidades com seu campo magnético colorido de maravilhosidade. Lembre-se de você. De seus arrependimentos, de seus pensamentos ainda infectados. De como é difícil extirpar por completo. Eu lembro de mim.

 

*Miguel Rios é jornalista, recifense, militante LGBT e filho de Oxalá.


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