Liberen a Suárez!

10/06/2015 | por: Gabriel Brito

Blatter renunciou, não tem ninguém mandando na Conmebol, na CBF ou na AFA e nossa esperança de dias melhores continua se avolumando.

No entanto, não podemos deixar pra trás um dos nossos “caídos em combate”: Luisito Suárez, ele mesmo, o bipolar atacante uruguaio, despertador de sentimentos não menos bipolares entre o público que o acompanha.

Para quem não sabe, os grandes mafiosos da bola não se contentaram em banir o pistoleiro da Copa do Mundo: o autor do gol do título da última Liga dos Campões está fora da Copa América.

“Está esquecido. Espero que a FIFA reduza sua suspensão”, declarou o zagueiro Giorgio Chiellini, logo após o anúncio “da maior punição da história dos Mundiais”.

Pois é, o agredido da história foi quem teve a visão mais serena do fato que marcou a vitória uruguaia e eliminou a Itália da Copa do Mundo. Claro, sabe o que se vive ali dentro, sabe o que sempre rolou no futebol fora das câmeras e paparazzis, sabe o que teve de fazer pra chegar a ser zagueiro titular da Azurra na competição mais importante do Planeta.

Uma pena que seu espírito esportivo não pôde influenciar os demais envolvidos na trama.

Porém, para levantar a bandeira da anistia do condenado, é preciso fazer o papel do advogado e embasar a defesa.

Nem bem terminara a partida e a mídia já discutia qual seria o tamanho da inexorável sentença. Hipótese zero de um “segue o jogo e parem de chorar”, dado que, apesar de bizarra, a mordida não causou lesão alguma ao atingido e tratou-se muito mais de uma privação de sentidos que poderia ter dado prejuízo ao uruguaio e seu time.

Só pra esclarecer: se o trio de arbitragem flagrasse a loucura e resolvesse expulsá-lo, tudo certo. O duro é ter de encarar a segunda arbitragem, a dos engravatados.

E neste caso conseguiram ser mais obscuros que o STJD. A portas fechadas, com imagens e diálogos jamais revelados, a distinta turma da propina decidiu pela pesadíssima punição de 9 jogos oficiais – leia-se, válidos por campeonatos – a Suárez.

E, novamente, tudo bem defender sua punição, o tamanho do castigo é que não dá pra engolir. Como La Celeste só jogou mais uma vez pelo Mundial, ainda há toda uma Copa América e boa parte do primeiro turno das Eliminatórias da Copa de 2018 para cumprir a pena.

Se isso não é desproporcional e abusivo ao extremo, a única justiça possível aos propineiros do futebol é o paredão de fuzilamento, convenhamos.

Voltando ao triste circo da época, não me sai da mente a ideia de que o jogador foi vítima de uma nova faceta do futebol e toda a sua exposição midiática. Passei os dias seguintes vendo as pessoas mais aleatórias, inclusive pouco afeitas ao referido esporte, opinando sobre o caso.

Até o caga-regra mor do panfletinho mais fascista do Brasil deu sua pitada. Só faltou sugerir eletrochoques.

Lembro que já me encontrei desolado pouco depois do jogo: era incrível a gritaria punitivista ecoando pelos programas esportivos e as famigeradas redes sociais. Mais um debate que saiu de qualquer realismo e descambou para os recônditos fetiches justiceiros de nossa sociedade.

Não deu outra. Os espertíssimos business men do futebol aproveitaram o clamor e tascaram uma bela suspensão.

Não foi difícil fazer a ligação: desde 2013, ocorriam vigorosos protestos nas ruas, entre outras razões pela forma como foi feita a Copa, inclusive com cartazes de “FIFA, Go Home”.

Além disso, a entidade que adora vender a ideia do “Fair Play” recebeu uma desoneração tributária do governo federal da ordem de 1 bilhão de reais, algo vergonhoso diante dos outros 9 bilhões de lucros do evento.

Logo, nada mais conveniente do que aparecerem na telinha anunciando uma seríssima punição contra aquele que insiste em corromper os valores da desportividade e do respeito. Suárez foi um excelente bode expiatório.

Basta comparar às demais punições em outros lances violentos. Em 1994, o lateral brasileiro Leonardo, após aquela brutalíssima cotovelada em Tab Ramos – que ficou três meses fora dos campos – pegou 3 jogos, o suficiente para ficar de fora apenas do restante daquele Mundial. Não me recordo de reclamações sobre a leniência da sanção.

No mais, cabe lembrar como se varreu para debaixo do tapete a cotovelada de Neymar no croata Modric, aos 20 minutos da primeira etapa do jogo de estreia, que lhe valeu um cartão amarelo. Dado o rigor com Suárez, como esse lance não foi a julgamento e um suposto equívoco do árbitro corrigido ou no mínimo discutido?

Enfim, se quiserem fazer um agrado aos apaixonados pelo jogo, os senhores podiam anistiar Luisito, permitir ao Uruguai sua inscrição de última hora na Copa América e deixar em paz um dos poucos jogadores do Mundo que ainda transmite algo de autêntico e indomável em sua forma de jogar – obviamente, já não estou me referindo a mordidas.

Típica representação de uma sociedade que faz de tudo pra controlar gestos, falas e comportamentos, enquanto libera tudo que cheirar lucro, a suspensão de Luis Suárez precisa ser revogada. É o triunfo dos hipócritas, a derrota do que, para bem ou mal, é de carne e osso. Ouçam Chiellini.

 

 

 


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