O Marco que atrapalha o crescimento do futebol feminino

22/09/2017 | por: Central 3

Por Leandro Iamim

Marco Aurélio Cunha é um monumento ao atraso do futebol brasileiro. Talvez o sabonete mais bem-sucedido de sua geração na arte (pois é uma arte!) de envelopar a ignorância com verniz intelectual.

Ao fingir que não sabia da demissão de Emily Lima da seleção, demissão essa arquitetada por ele mas creditada pelo mesmo ao presidente da CBF (aquele que não pode sair do país), lançou mão, entre uma abobrinha fisiológica e outra, da matemática do embuste: seus 36 anos alegados de experiência no futebol.

Trinta e seis anos distribuídos entre os cargos de médico, aspone, proxeneta político, animador de programa de TV e fofoqueiro de plantão, sempre um apêndice desnecessário quando em um vestiário, sempre (e bem detectou Emily) no papel dos olhos de quem manda – um lambe-botas oficial. Fala bonito, dá gosto de ver, e seu sucesso como palhaço em rede aberta de TV lhe rendeu até, vejam como é bom ter trinta anos de experiência com o futebol, um cargo de vereador, sumariamente abandonado para assumir a coordenação do futebol feminino da CBF, talvez só por amor ao esporte, talvez por ser, o mundo da política formal, complexa demais para quem vive de fazer políticas nas sombras.

CBF treinada por Vadão em sua chegada. E quem é Vadão, se não apenas mais um dos abutres cuja retaguarda atenta vive de telefonar para clubes quando degola-se mais uma cabeça no futebol que mais demite técnico no mundo? Sim, ele é mais do que apenas isso. É um “profissional” marcado entre outros também experientes no ofício como um sujeito, digamos assim, de bom diálogo com engravatados, empresários da bola, um tipo bem astuto, que entendeu há décadas o jogo que Emily se recusou a jogar nos últimos dez meses. Que seja ele o nome mais forte para voltar ao cargo, não me surpreende.

Primeiro, porque escancara o fato de que a questão da demissão não era o jogo, o futebol – Vadão não nos deu, em Copa e Olimpíada, nenhum vislumbre de trabalho interessante, moderno, adequado, foi um fiasco absoluto.

Segundo, porque bastam dez meses para que os bons amigos sintam saudades um do outro, embora o impostor que coordena tudo isso vá dizer, como já disse, que a decisão é de Del Nero, da CBF, minha, de Jesus, do poste de luz, menos dele, ele nunca, longe dele, ele quer que achemos que um vaso na sala de espera da CBF tem a mesma influência que sua lábia interessada nas decisões de gabinete.

O mais espantoso é que Marco Aurélio Cunha tem plena consciência de que não é suportado dentro do ambiente da seleção feminina. Cumpre feliz o papel de intragável. É tolerado à força, pelo poder que tem e mais uma vez comprovou ter, mas detestado em escala quase unânime, o que, para quem testemunha, parece ser, na verdade, um fetiche, um prazer mórbido, e antes fosse só essa a tara do pequeno notável: o coordenador que defendeu a valorização dos corpos femininos para atrair o público do futebol masculino tem bastante tesão pelo negócio do futebol, embora nem tanto pelo jogo em si, como volta a provar.

Na outra ponta da história, as jogadoras, que cogitaram entregar uma carta pedindo a permanência de Emily, impotentes na decisão, mas ainda capazes de se mobilizarem. Dessa vez, ao contrário do que geralmente ocorre no futebol, as atletas são e estão mais fortes que os cartolas, absolutamente desmoralizados pelas próprias depravações.

Torço para que falem. Que rejeitem o estabelecido por gente como esta que comanda a CBF e não tem o menor respaldo popular. Eles são e estão frágeis. Quem se colocar contra Marco Aurelio Cunha pode até sofrer alguma coisa agora, mas em bem pouco tempo terá o merecido lugar na história que Marco Aurelio Cunha, há 36 anos, insiste em borrar.

É você, Marco Aurélio Cunha, que a seleção feminina (e o futebol como um todo) quer que suma do mapa.

 

*Leandro Iamin é jornalista e um dos fundadores da Central3


2 Comentários »

  1. Parabéns!
    Verdades indesmentiveis.

    Comentado por Hugo Botelho — 22 de setembro de 2017 @ 16:06

  2. Aprendi a acompanhar o futebol feminino a partir do trabalho das Dibradoras. Fiquei chocado com a demissão da Emily, depois de tão pouco tempo. E pensar que acredite na possibilidade de um trabalho a longo prazo…. Ao menos, parece que as jogadoras tomarão posição, algo que os jogadores há muito, por medo de perder contratos e patrocínio, deixaram de fazer…

    Comentado por Cristhian Gärtner — 23 de setembro de 2017 @ 0:09

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