São José e o direito à honra

04/09/2017 | por: Leandro Iamin

Por Leandro Iamin

Conheci o Lucas por causa do Palmeiras. Tantas interações virtuais depois, tínhamos em comum, mais que o clube do coração, o outro clube do coração, da cidade do nosso coração. O São José Esporte Clube, enfermo em um abafado leito onde tantos morrem, se tornou nosso assunto particular. As coisas só pioraram desde então, com o rebaixamento à última divisão estadual, o que, levando em conta as chances de, subindo os degraus, alcançar a Serie D nacional, pode ser considerada a oitava ou nona divisão do futebol brasileiro.

O São José jogava tudo neste último domingo, 3 de setembro, 10 horas da manhã, contra o União Mogi, a Serpente do Tietê, que vencera o jogo de ida e tinha o empate e uns trinta torcedores à seu favor. Ou vencia e seguia em marcha para a possante terceira divisão paulista, ou perdia a vaga e ficava sete duros meses sem atividade oficial. Mas, mais que isso, jogava pelo detalhezinho pouco lembrado que eu sempre relembro para os esquecidos: o direito à honra.

Não é só o time grande de primeira divisão e milhões de seguidores que tem direito ao estilo de vida próprio, ao orgulho de ser o que é, ao amor apesar de qualquer situação. O XV de Jaú, tão tradicional, está na mesma divisão do São José, se despediu antes da competição, e continuam por lá pintando a cidade de verde forte e amarelo vibrante como se nunca tivessem abandonado os dias de glória – e não abandonam mesmo, a glória consiste em vencer o elástico do tempo, a glória é uma coisa que fica. Então, que bom ver os arredores do estádio de São José dos Campos pintados de azul e amarelo, ambulantes aos montes, padaria lotada, botecos também, vendedor de bandeira, de chapéu, polícia preocupada, rojões espoucando no céu, mensagem para o primo na Dinamarca relatando aquela beleza, um jogo de futebol acontecendo de verdade, não um exercício futebolístico de sobrevivência como de costume.

Ou seja, tudo que também tem nos jogos do Palmeiras, ou do Flamengo, ou do Bahia. E nessa hora não cabe nem importa a comparação. O sal do mar está, igualmente, em uma colher de água do mar ou em um balde. Duas lágrimas salgadas saíram de mim semanas atrás, ouvindo pela rádio o gol que habilitava a Águia do Vale a passar de fase. Foi de ternura, de lembrar dos cheiros da cidade, que tinha tanta terra e hoje é tanto concreto, e de esperança em ver um jogo com casa cheia, e não importa que caibam 70 mil pessoas no Morumbi, cerca de 4.000 pessoas é casa cheia para alguém, e casa cheia é casa cheia na mansão ou no puxadinho. Ontem, domingo, quando vi que Lucas chorava, não duas lágrimas, mas duas dúzias delas, não me leve a mal, amigo, mas senti algo realmente bom – no fundo, exatamente o que procurava ao pegar a estrada com a namorada tão parceira às sete da manhã.

Sentir que alguém ainda chora muito por uma derrota de um time que o futebol brasileiro já virou as costas, a própria cidade já tentou matar e que não pode prometer a menor alegria ou protagonismo ao torcedor me reconecta com valores muito caros do futebol que eu acredito cada vez que, do Palmeiras, cobro um futebol bem pensado e jogado mesmo sabendo que o futebol é, em essência, praticado por 99% de times incapazes de entregar estética, arte, sonho. Ops. Estética e arte, consequências de talento e treino, estrutura e tempo, sim, de fato, nem nas primeiras divisões dos países a gente encontra mais do que quatro ou cinco times capazes disso – imagine na quarta divisão de um estado. Sonho, porém, é outra coisa. Ele não depende de garantias, e pode estar mais presente na ralé do mundo do que nas naves espaciais que chamam de estádio. A gente sonha porque sonha, não porque faz sentido.

Lucas chora pelas fotos de criança no estádio que passou a semana, ansioso, olhando, pelos sete meses sem jogos que farão a saudade ganhar proporções imensas, pela incerteza de qual São José ele vai encontrar quando estes sete meses passarem, pelo hábito que lhe será negado todo este tempo, mas não chora exatamente porque perdemos um jogo de futebol – e eu também não estava lá exatamente por isso. O São José, que o Lucas ama e eu adoro, teve uma manhã de sol muito esperada e merecida. Se não deu certo, qual é a novidade? É uma pena, mas existe mais em jogo do que o placar aponta. Sempre.

Do Lucas, ganhei um adesivo do São José, que, ao colar em minha geladeira, sofreu um pequeno rasgo. A cicatriz até que caiu bem. Quando a asfixia das grandes obsessões por títulos mundiais e interplanetários me tirar ainda mais a capacidade de olhar pra baixo e ver o futebol com os (meus) pés no chão, eu ligo o rádio, ou o site, ou pego a estrada, e reencontro o São José. E se o São José não tiver jogo marcado, a gente tenta resistir. Necessário, o São José.


1 Comentário »

  1. Belo texto! Estar no Martins Pereira nesse último domingo foi, a despeito de tudo, inesquecível. Foi encontrar amigos que há anos não via, foi ver gente de todos os gêneros e idades simplesmente acreditanto, foi torcer como há muito não torcia: xingando bandeirinha, juiz, goleiro adversário pela cera, cantando junto com a torcida — coisas que não pude fazer no “no$$o” Allianz. Saí chateado, óbvio. Não foi impedimento (muito menos pênalti), o time perdeu gols demais… Mas, ainda assim, foi inesquecível. Ao menos até os próximos sete meses.

    Comentado por Thiago — 5 de setembro de 2017 @ 0:09

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