Um bom dia para o futebol da cidade

25/07/2017 | por: Leandro Iamin

Por Leandro Iamin
“Fui ao estádio ontem”. Poucas lembranças daqueles tempos de escola, de criança, guardam consigo as cognições de excitação tão intactas quanto esta frase. Ouvir isso de um amigo, geralmente o Gabriel, ou dizer isso a todos sempre causava a desesperada curiosidade dos amiguinhos. A fantasia como gatilho, a lembrança inexperiente, ou virgem, de quem ainda via o caminho para um estádio como uma epopeia, um encontro com o mundo real e também o dos heróis, a chance de ver, pela primeira vez ou não, o palco da figurinha 34, aquela que gerou repetidas no álbum e ninguém troca. Tudo é imenso na memória vivida de uma criança que vai ao estádio.

“Se arruma, moleque, vamos pro jogo”, e então eu já deveria entender o que é para um cachorro ouvir as palavras mágicas “vamos passear”. Ansiedade de zero a cem em dois segundos. Não importava o nível do jogo, muitas vezes eu nem sabia que tinha jogo, mas lá estava eu com os adultos, vendo meus ídolos e, principalmente, vendo algo de verdade acontecer, já que a vida de uma criança de classe média envolve muito videogame, futebol de quintal, desenho ou série de TV, coisas que não acontecem, por assim dizer, e não saem no jornal no dia seguinte. Coisas que não se conta na escola no dia seguinte.

Citei a criança de classe média, mas não é muito diferente para todas. Na verdade, a cidade acontece ainda menos para a classe mais baixa que nela vive, alijada de quase toda atividade que envolva grandes deslocamentos ou ingressos custosos, e é daqui, dessa periferia duranga descrita, que ferveu, em priscas eras, a importância do futebol brasileiro em cada capital. Tão importante quanto o elástico do Rivellino era ter alguém para dizer “eu vi!” no dia seguinte, e o filho desse alguém dizer o mesmo na escola, e o amigo deste alguém dizer o mesmo ao cliente gordo na padaria do centrão. Não sou o primeiro a te dizer que sem as testemunhas que dão muito capital emocional e pouco capital pecuniário ao jogo a engrenagem para de funcionar, né?

Quem?

No obrigatório filme Geraldinos, de Pedro Asbeg, o debate sobre o fim da geral do Maracanã é, em dada hora, combatido pelo historiador Luiz Antonio Simas com o seguinte argumento: “aí dizem hoje que ‘ah, agora o lugar onde ficava a geral é melhor para assistir ao jogo’. Assistir quem?”. Sou deste time, Simas. Não me contento só em ver “quantos” são. Me interessa sobretudo saber “quem” são. Porque se forem sempre os mesmos amarrados às carteirinhas de sócio-torcedor que fomentam a repetição sistêmica dos privilegiados, o número vale menos e o futebol perde ressonância nas ruas; e se forem participantes do mesmo recorte social médio, o jogo vira uma atividade de gueto e morre sufocado pela contradição.

Então quando um clube grande cobra ingressos baratos (ou, vá lá, menos insultuosos), a gente respira. Sim, a gente sabe, o clube grande só faz isso quando precisa do muque do peão e do gogó do trabalhador para sair da fossa. Taí o Internacional, afrouxando os nós e cedendo à ideia de seus torcedores de disponibilizar ingressos populares em seu estádio – faria isso em outro momento, jogando Série A e Libertadores? Não importa agora, cenários condicionais distraem e não resolvem, mas 50 mil sãopaulinos em um estádio com ingressos baratos numa segunda-feira mudam, sim, efetivamente, a cidade na terça.

E que pena o Corinthians não construir um estádio para 70 mil. Que pena o Palmeiras não colocar 50 mil em um estádio na cidade desde 2000. Os 40 mil máximos destes dois clubes em suas canchas não reverbera na cidade como deveria, menos pelo “quanto”, mais pelo “quem”. O futebol é indispensável quando põe 70 mil em um domingo de sol, 80 mil em outros e até 20 mil em alguns, jogos importantes para o contraste, o espaço vazio como mensagem do quão importantes são aqueles domingos de sol. O futebol é descartável quando só os mesmos de sempre testemunham, quase ninguém a mais foi e ninguém leu o jornal ou mesmo tem opinião formada sobre nada. Quem não ouviu o anônimo do degrau acima falar qualquer absurdo sobre o jogo terá de conversar com a polêmica que a TV no almoço quiser. “Foi pênalti ou não foi?”.

Eis a comunicação perfeita, planejada e idealizada para quem não viu – nem viveu –  o jogo.

Na segunda-feira em que saiu a notícia, ainda que inconclusiva nos detalhes, de que bandeiras e faixas deverão voltar em alguma medida nos estádios de SP, um estádio com muita gente dentro, gente essa que pagou ingressos com preços acessíveis, vale e conforta. Ainda está oceanos distante do que deveria ser, teve torcedor desistindo porque precisava de cartão de crédito para pegar uma entrada, teve tudo aquilo que a gente já sabe. Um ano atrás o Morumbi, pela semifinal da Libertadores, viveu uma noite deprimente, violenta, e os ingressos eram caríssimos. Ontem foi um bom dia para o futebol da cidade.


2 Comentários »

  1. Um alento nestes dias em que o prefeito de uma metrópole (e ex-presidente de clube, o que só piora a situação) afirma com todas as letras que “futebol não é para pobre”.

    Comentado por Tiago Andrade — 26 de julho de 2017 @ 3:14

  2. Parabéns Iamin,

    Belíssimo texto.

    É inacreditável ler no Twitter, palmeirenses e corintianos “menosprezando” o público são paulino dizendo que o ingresso estava “barato”. Pô meu, as arquibancadas custando entre 20 e 30 reais é BARATO? É justo, apenas isso, PREÇO JUSTO.

    Comentado por Rubens — 27 de julho de 2017 @ 15:59

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