Uma breve história de futebol

17/03/2017 | por: central3

*Por Paulo Júnior

Era uma fazenda de interior de Brasil, o pai trabalha no trator, a mãe faz a comida para quem trabalha no trator ou na roça, os meninos vão para a escola de manhã e ajudam a capinar de tarde, não existe televisão nem o hábito da leitura, uma dose de cachaça e os adultos dormem às dez, os meninos até antes disso, no rádio parece que é dia de Copa do Mundo, alguém comentou que é a final, não existe jornal mas basta estar vivo para ter ouvido falar de um sujeito chamado Pelé, arrodeiam o rádio do seu Sidraque, Brasil campeão do mundo, o pai não se importa muito, a mãe prepara a comida para o dia seguinte, mas parece que os meninos gostaram desse trem, querem um rádio também, só quando tiverem o próprio dinheiro, e vão a engraxar sapatos, juntar moedas e comprar um rádio.

Leivinha.

Era o jogo final do Campeonato Paulista de 1971, não que os meninos necessariamente soubessem, mas era jogo grande, não que os meninos precisassem arrodear o rádio do seu Sidraque, eles tinham o próprio rádio agora, mas ainda assim ficaram todos juntos e os dois rádios ligados, simétricos e ecoando pelo chapéu de palha, e os meninos pularam muito com o gol de Leivinha, o Palmeiras ganharia do São Paulo e eles fariam a festa chupando balas de canela, eles adoravam os cabeceios do Leivinha, mais que balas de canela, como podia ter uma cabeça tão dura e tocar a bola com tanta força?, um tio explicou que não é a cabeça que é dura, é a bola mesmo, e ficaram tão felizes correndo pela roça que nem perceberam que o gol tinha sido anulado, os meninos chamavam de cancelado, gol cancelado, o árbitro disse que foi com a mão.

Com a mão, seu Sidraque? O Leivinha vai de cabeça, de cabeça!

Foram saber da verdadeira história só muito tempo depois: o Dulcídio era o bandeirinha, correu para o meio-campo quando viu o gol de cabeça, mas o Armando Marques, o árbitro, anulou, deu gol de mão, o Dulcídio disse que chegou no vestiário e ficou quieto na dele quando todo mundo foi para cima do Armando perguntando por que você anulou o gol?, e falaram para o Armando que o Dulcídio correu para o meio-campo, mas por que correu, Dulcídio?, corri porque o gol foi legítimo, Armando!, meu deus!, ô, Armando, o Dulcídio falou que o gol foi legítimo!, e essa história terminou com o Armando indo lá cobrar o bandeira, o Dulcídio ainda conta que estava sentado numa poltrona vermelha, como se existissem poltronas vermelhas no vestiário dos árbitros no Morumbi, o Armando ficou puto, você é um colega desleal, Dulcídio!, por que falei a verdade, Armando?, e aí tiveram uma briga de anos, Armando e Dulcídio, passou uma década e o Armando disse que foi o maior erro da sua vida.

Cruzou para a área, Eurico, ainda o Palmeiras, bola para Leivinha e é gol. Gol. Gol do Palmeiras. Leivinha. O árbitro anula o gol. Anula o gol. Leivinha com a mão. Anulado o gol. Anulado o gol. César, Dudu, Eurico reclamam de Armando Marques. Dudu continua reclamando.

Foi roubado. Os meninos conheceram o roubo no futebol e na vida. Cresceram e se recusam, até hoje, dois mil e vários, a ver o lance.

Vou ver o quê? O Leivinha vai de cabeça, de cabeça!

Uma breve história do futebol contada de pai para filho: quando Deus estava criando as coisas e chegou no final da sexta-feira, deviam ser já umas onze e pouco, aquela dúvida entre dormir cedo ou ir tomar mais uma, até que decidiu que o sábado seria de descanso, um dia todo de merecido fazer nada no pé da porta de casa, mas batia quase meia-noite e Deus achou que estava faltando alguma coisa, algumas coisas, onze, talvez, e então Deus criou Leão; Eurico, Luís Pereira, Minuca e Dé; Dudu e Ademir; Edu, Leivinha, César e Pio, e não é que eu acho, filho, eu tenho certeza que Deus criou o futebol no 4-2-4 onde o único 2 possível é Dudu e Ademir, o equilíbrio perfeito, um encontro metafísico vestido de verde, uma força cósmica que cruza bolas na cabeça do Leivinha.

O filho acreditou.

*Paulo Junior é jornalista, cineasta, escritor e o responsável por alguns podcasts da casa


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