“Viado aqui não”, reforça o futebol aos gritos

12/07/2017 | por: Central 3

*Por Miguel Rios

O futebol é um universo onde se pode tirar muita onda. A permissividade para grear é quase 100%. Só não tire onda sendo gay. Não tire onde praticando homossexualidade ou algo que lembre, mesmo que de longe. Caso contrário, vira caso sério. Um crime.

“Viado aqui não.”

O mais recente exemplo é dos jogadores do Sport Clube Gaúcho. Três demitidos por uma masturbação coletiva entre eles no vestiário. Um vídeo vazou e nada de misericórdia. Gilmar Rosso, presidente do clube, alega que não por homofobia. Ok. Mas ele alega que não defende moral e bons costumes. “Não sou guardião da moral e dos bons costumes. Não me interessa o que eles fazem ou deixam de fazer. A única coisa com a qual fiquei bravo, a única coisa que eu proíbo aqui dentro é foto e filmagem, nada sem nossa autorização.”

Mas ele também diz que sentiu nojo e nem conseguiu ver o vídeo inteiro. Pergunta: se fosse uma filmagem de um momento familiar, com jogadores passeando com os filhos pelo clube, sem autorização prévia da direção, haveria demissão?

Rosso também deixou escapar: “Imagina quando eles entrassem em campo, o que iam ouvir. Até onde eu sei esses três não são gays, só fizeram tirando onda. Mas agora eles vão ter que provar que não são”.

“Viado aqui não.”

Mais perguntas: o medo de vincular o à homossexualidade fica ou não nítido? O problema é o ato dos jogadores ou a reação dos torcedores?

Pergunta síntese: a homofobia foi ou não componente nessa decisão? Conte até dez antes de responder. E responda para si. Responda de acordo com suas vivências futebolísticas. Responda sem a necessidade de invalidar toda a denúncia de homofobia só para garantir com os clichês que “o mundo tá ficando chato”, “que tudo hoje é homofobia”, “não sou homofóbico, mas…”

Lgbtfobia, racismo, machismo, etc. não são medidos apenas por violência física. Existe a simbólica e a psicológica. As que pingam todo dia e quem sente na pele é que sabe. Imperceptíveis para privilegiados. Inimagináveis até.

O vazamento do vídeo da masturbação dos jogadores já é homofobia. Qual o objetivo dessa divulgação? Foi um ato íntimo entre quatro paredes, que poderia ter sido ignorado. Não o foi por quê?

“Viado aqui não.”

Não há como negar que o universo futebol é dos mais preconceituosos. Onde machismo, lgbtfobia, racismo e qualquer outra discriminação correm livremente. Tudo para humilhar o adversário e se autoeleger superior.

Quando se quer menosprezar e agredir, “viado” e “bicha” são primeiras palavras lembradas e usadas de maneira pejorativa em todo jogo. Saem no automático. Quando se quer elogiar, se diz que o time ou o jogador teve atitude de macho.

Ser gay no futebol é se esconder. Entrar no armário nem que seja por 90 minutos no gramado ou na arquibancada. Para evitar agressões ou por olhares, por piadinhas, por constrangimentos.

Os héteros protegem o futebol com uma cerca elétrica. Torcidas organizadas, como do Palmeiras e do Remo, já fazem campanhas para minimizar a lgbtfobia nos estádios. Tentativas pontuais e corajosas. Resultado: ojeriza feroz por torcedores do próprio clube. Tidas como inimigas. Como que abrindo a guarda para uma infecção, dando munição aos adversários.

“Viado aqui não” foi a faixa que corintianos abriram diante da sede após Emerson Sheik ter dado um selinho em um amigo e a foto viralizado. Viado, no futebol, onde machos reinam e são exaltados como o suprassumo da humanidade, só serve para ser referência do que é ridículo, do que é errado, do que é insulto.

Nada mais habitual para validar a própria macheza do que questionar a macheza do outro. As disputas de poder dos ditos alfas. Tanto ofendem homossexuais, mulheres, negros, quanto chamam outros alfas para a briga, quebram cabeças, matam, porque alfas são assim. Selvagens. Machos.

Ser gay no futebol é sofrer o desprezo que Richarlysson sofre sem ter cometido crime algum. Ser gay no futebol é saber que um feminicida como Bruno é muito mais bem aceito e até idolatrado. “Viado aqui não”.

 

*Miguel Rios é jornalista, recifense, militante LGBT e filho de Oxalá.


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