ESPECIAL: 100 histórias escondidas da Copa do Mundo – Parte 1

A Central3 entrou de cabeça na Copa do Mundo 2018. Explicar os motivos de ser o maior evento esportivo do planeta não é tarefa simples. Por isso, a gente se esforçou para ir atrás daquelas histórias curiosas que você não lê em qualquer lugar.

Este especial mostra o porquê da Copa do Mundo ser um evento mágico, que entra no imaginário até de quem não gosta de futebol.

A Central3 convida você para entrar no universo das histórias escondidas mais curiosas da Copa do Mundo. Vem com a gente nessa!

100 – AS CAMISAS BOLIVIANAS

Camisa branca, calção azul, meião preto. Assim o Brasil jogou a primeira Copa do Mundo de futebol, no Uruguai, em 1930, em grupo dividido com Iugoslávia, a vencedora do triangular, e a Bolívia, cujo uniforme era quase idêntico ao nosso. Havia um detalhe curioso nas camisas deles.

“Viva Uruguay” tem onze letras, e a ideia dos bolivianos era que cada jogador usasse, na camisa branca de linha e na preta de goleiro, uma letra da frase, formando, na hora do retrato, uma homenagem ao país anfitrião, cuja adesão da torcida valeria ouro. Mas um dos jogadores meio que sumiu, e assim a primeira foto entrou para a posteridade com os dizeres “Viva Urugay”, sem uma letra “u”. Em campo, a Iugoslávia, que já vencera o Brasil, enfiou quatro a zero.

De modo que a primeira vitória do Brasil em Copas do Mundo (outro 4×0), três dias depois, não valia nada. A Iugoslávia já era a campeã do grupo quando brasileiros e bolivianos chegaram ao Centenário, em Montevidéu. Mas havia outro problema: as duas equipes só tinham camisas brancas, sem fardamento reserva. Foi quando, por sorteio, o pitoresco uniforme boliviano com as letras formando “Viva Uruguay” foi precocemente aposentado e jogado no almoxarifado da história.

Foi a própria seleção uruguaia que devolveu a gentileza da homenagem e emprestou seu uniforme celeste para a Bolívia. Era a primeira vez que o azul uruguaio encontrava o branco brasileiro, vinte anos antes do Maracanazzo. A Bolívia, cujo técnico Ulisses Saucedo, pasmem, também atuou naquela Copa como árbitro, chegou com boas intenções mas não fez mais do que um retrato curioso. O Brasil ainda estava longe de ser o que se tornaria em Copas e o Uruguai, até hoje, nunca perdeu uma competição de futebol organizada em seu país.

 

99 – O FUTEBOL TAMBÉM É DOS BRONCOS: A IRLANDA DE 1990

Nem sempre o que fica de uma Copa do Mundo é a arte. Aliás, o futebol é, quase sempre e em todo lugar, praticado sem maior refinamento estético, e defender só os artistas da bola é reduzir o jogo a muito pouco. Em Copas, O carisma de países nanicos ou estreantes esforçados costuma temperar o coração daqueles que separam um tempo maior do mês para vê-los. No caso da Copa de 1990, tida por muitos como tecnicamente fraca e dona da menor média de gols da história, pudemos assistir a estreia da seleção da Irlanda e, olha, poucas vezes o futebol viu um encontro tão convicto entre a grossura e a alegria.

A Copa do Mundo também é dos broncos. Alojados no extremo sul da Itália, os atletas da Irlanda chegaram às quartas-de-final sem conhecerem a vitória – nem a derrota, sejamos justos. Na estreia, empate contra a velha vizinha Inglaterra, com um gol “criado” a partir de um bico do goleiro. Depois um 0x0 hediondo com o Egito e, por fim, o 1×1 necessário contra a campeã europeia, a Holanda de Gullit. O gol irlandês é um absurdo. Outro bico do goleiro Bonner, a zaga de laranja espana, o goleiro holandês espirra a bola das mãos, e está lá: gol, classificada a Irlanda, ganhando ainda o desempate, via sorteio, que jogava a Holanda para a cova dos alemães, de onde não sairia viva.

Nas oitavas, a Romênia, em Gênova, lá no norte. Mais um 0x0 sem vergonha, e vaga conquistada nos pênaltis, graças ao goleiro dos bicos. Eles estavam entre os oito, e se sentiam, com justiça, no topo do mundo. Antes do duelo contra a anfitriã Itália, em Roma na fase seguinte, uma visita solene ao Papa, cuja cerimônia dedicada aos atletas servia de condecoração e posicionava de vez aquela saga irlandesa: eles tinham direito ao orgulho que não é reservado só aos campeões. O jogo contra a Itália foi 1×0, enfim uma derrota, mas já não importava: a torcida irlandesa, mesmo na casa dos vencedores, foi a mais ouvida após o apito final e não foi embora do estádio enquanto os atletas, de banho tomado, não voltaram do vestiário ao gramado para uma despedida emocionada.

Em Dublin aconteceu a maior recepção que um time ruim já recebeu, que traz a lembrança para você e eu: nós torceremos, em algum momento da Copa da Rússia, pelo sucesso de um time tosco em detrimento de uma seleção que pode nos entregar jogos de qualidade muito maior. Não é contraditório nem nada. As boas histórias são contadas pelos bons corações, e a Copa do Mundo com 32 times precisa de seleções como a Irlanda de 90 para existir, tão quanto precisa das favoritas. Treinada por Jack Charlton, um mito inglês, aquela Irlanda era a união de atletas que você não precisa conhecer, cujos jogos você não precisa assistir, mas que a história merece ser considerada.

 

98 – O DIA EM QUE UMA IMPRESSORA GANHOU A FINAL DA COPA

Às 19h48 do dia 12 de julho de 1998, a impressora do Stade de France cravou Edmundo na equipe titular do Brasil que, às 21h, enfrentaria a França pela final da Copa do Mundo. O esforço de todo o dia para manter sigilo a respeito de Ronaldo se transformava em demanda irrefreável de toda a imprensa mundial: o que aconteceu com o Fenômeno? Dentre os grandes acontecimentos do futebol contemporâneo, este é aquele em que a imprensa mais comeu poeira. Aturdidos, todos buscavam pistas, fontes, e a análise do jogo em si já não importava quase nada. Para piorar a confusão coletiva, o camisa 9, 21 anos, 41 jogos pela seleção, estava relacionado entre os reservas, indicando condição de jogo.

Foram exatos 30 minutos até a impressora cuspir novos papéis, agora escalando Ronaldo, devolvendo Edmundo para o banco de reservas e abrindo um precedente na história da Copa do Mundo, sempre rígida a respeito das tais escalações oficiais. Galvão Bueno mostrava na televisão os dois papéis e criticava a confusão, que, para alguns, só se tratava mesmo de um erro humano, de teclado, coisa simples. Não era.

Após a retificação da impressora do Stade de France, um Ronaldo longe de seu melhor estado abriu a porta do labirinto de informações desmentidas e desencontradas. Após a derrota brasileira, Zagallo abandonou a coletiva de imprensa irritado com uma pergunta justa: “por que entrou, Zagallo?”. “Entrou porque entrou!”, devolveu antes de uma áspera discussão. Há quem ainda não esteja satisfeito com a versão mais confiável dos acontecimentos – Ronaldo sofrera convulsão, e fora do hospital direto para o vestiário, querendo jogar. Jogador mais valioso do mundo e dono de um contrato de valores incríveis assinado com a Nike, Ronaldo foi, a partir dali, alvo também de uma rica lista de teorias da conspiração.

Foram quatro anos de cão para Ronaldo, que começava, em Paris, a construir a fantástica e pouco crível narrativa que o levara, após lesões e vários quilos, ao nome no papel e aos dois gols na final da Copa do Mundo seguinte, disputada no Japão. Com a chuteira (da Nike) pendurada no pescoço tal qual uma melancia, nosso camisa 9 recebeu a medalha de prata. A impressora, ninguém sabe, ninguém viu, não virou peça de museu.

 

97 – QUANDO ITALIANOS REJEITARAM A SELEÇÃO E QUISERAM MARADONA

Quando Diego Maradona aceitou ser, em 1984, o camisa 10 do Napoli, talvez não soubesse que viraria a personificação mais profunda do estilo de vida dos napolitanos e a redenção de um povo relegado ao posto de coadjuvante social do país. Mas virou, e encarnou boa parte do ranço que existe entre sulistas e nortistas daquele país, cujo Napoli, força do sul, é um símbolo importante. Quando, na Copa de 1990, ficou definido o confronto entre Itália e Argentina na semifinal, em Nápolis, Diego usou a imprensa a seu favor e lembrou a rivalidade entre povos para atrair torcedores napolitanos: “Pedem aos napolitanos que sejam italianos por uma noite, mas nos outros 364 dias os tratam como estrangeiros no próprio país”.

Não existe a contagem exata, mas é certo, pelos relatos, que o estádio San Paolo, a casa de Maradona, recebeu muitos napolitanos engajados contra a seleção italiana e à favor de seu maior ídolo. Uma situação inusitada e carregada de uma mensagem social que nenhuma propaganda do Mundial de 90 contou aos estrangeiros desavisados. Maradona, para eles, era o orgulho e o pertencimento, e a seleção do próprio país representava, como consequência, aquilo que oprime e rejeita. Em campo, Argentina classificada após o empate nos 120 minutos e a vitória nos penais. A cidade teve uma noite estranha. A Itália estava eliminada da Copa em casa, mas ao redor do estádio o sentimento foi, no mínimo, ambíguo.

Maradona já sofria com a imprensa do resto do país. Depois de 1990, sua vida na Itália se tornou insustentável, mas antes disso era preciso visitar Roma, capital italiana, para a final contra a Alemanha. Roma não era sua casa. Longe dos napolitanos, era o momento de encarar o revide. O hino argentino foi severamente vaiado por italianos ressentidos com Diego Maradona, que, artista que é e sabedor que as câmeras estavam olhando para ele, falou algumas vezes “hijos de puta”. O desfecho? Sorriram os romanos (e os alemães, campeões do mundo), chorou Maradona, ficou o mito.
ps.: 24 anos depois, no Brasil, a seleção local jogou em Fortaleza sem maiores problemas.

 

96 – A COPA, FERNANDO VANUCCI E A NOSSA CRUELDADE

Fernando Vanucci foi um grande no ofício. Ele mal sabia, quando foi afastado da TV Globo por aparecer no ar comendo bolachas, que a geração seguinte conversaria com cavalinhos de pelúcia e seria promovida ao Big Brother Brasil por fazer papel de bobo. No que toca a Copa do mundo, Fernando Vanucci está para sempre no folclore nacional por causa de sua entrada no ar após a final da Copa de 2006. “Ahhh Itália”, “a África do Sul élogo ali” e “mudar ou mudar de vez” se tornaram frases de uso corriqueiro, jargões espontâneos pra cá e pra lá. Um clássico.

O desafio para Vanucci depois da Copa da Alemanha foi, portanto, voltar a ser levado a sério. Logo ele, tão irreverente desde sempre na condução das atrações que punham em seu colo, do carnaval ao futebol, foi uma vítima do nosso humor viralizado. Era irreverente, de alguma forma, até na tristeza. Pois vejam só, no vídeo abaixo, como ele encerra a transmissão da final da Copa de 1986, no México. Camisa amarelona aberta no peito, uma bandeirola, uma corneta, um jeito diferente de ler o texto, um capitão do tri ao lado e a bola na mão. Dias antes, quando o Brasil perdeu para a França, encerrou a transmissão lendo uma poesia de Affonso Romano de Sant´anna, e começou a chorar. Não virou um clássico.

É pena que em 1986 o Youtube não estivesse à disposição das gafes e de qualquer atitude incomum daqueles que estão expostos diante de câmeras, ao vivo, enfrentando seus demônios particulares com sorrisos estalados. Se houvesse, talvez a soma de Fernando Vanucci com Copa do Mundo fosse poesia e lágrimas, não devaneios e corte. Pelas risadas de 2006, que eu e você demos, muito obrigado, Vanucci. Pelo “perdão” negado dali em diante, que o tirou da cobertura direta dos mundiais seguintes, talvez eu e você devamos pedir desculpas.

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