Meu pé de goiaba branca

 

 

Aqueles meninos sofriam de ansiedade. Nunca foi de bom tom aplicar ansiolíticos em crianças de oito anos de idade. Deixar eles soltos sempre foi a melhor maneira de tratar a hiperatividade de moleques que só tinham a obrigação de perder a ponta dos dedões em pedras soltas. Na falta dos coloridos e plásticos playgrounds que abundam atualmente qualquer condomínios, o que entretinha aqueles guris em meados dos anos 1990 era uma árvore frutífera.

A agonia da molecada era grande. Nunca, ou quase nunca, aquele fruto ficava maduro. Colhia-se pequeno, duro e verde mesmo. Era o que dava pra pegar nos galhos mais baixos, o limite que os pequenos braços alcançavam. As bonitas, claras e maduras estavam na parte mais alta da planta. Um Everest para aqueles que ainda levavam a catinga do mijo entre as pernas.

As melhores só chegavam as mãos quando estavam as pés. Graças a inevitável, e mais recentemente contestada, lei de Newton, as frutas depois de maduradas apodreciam e caiam na areia cinza. Ali se observava que diferente das maiorias das goiabas do mundo, a coloração da parte de dentro era diferente. No lugar do vermelho estava o branco. E junto com as sementes amarelas vários tapurus, bichinho bonito, mas nojento.

Jesus, que apareceu para a futura ministra dos direitos humanos quando ela estava em cima de uma goiabeira, segundo relatos recentes, nunca se fez presente em baixo daquela árvore localizada nos fundos de um edifício localizado na minha amada, idolatrada, salve salve, Candeias. Pelo menos aquelas crianças nunca viram o filho do Homem dar as caras por lá. Mas o Nazereno é cheio dos seus mistérios. Vai ver apareceu por lá algum dia e não quis entrar na brincadeira de se pendurar na árvore. Deveria curtir mais andar por cima da água.

Se um dia ele tivesse pintado por lá, assim como fez com a política/pastora pastora/política, diferente dela os pirralhos não iam se preocupar se ele iria cair lá de cima ou não. Na idade que tinham na época, começa o momento de afirmação em sociedade. Quem consegue algo inédito se destaca dos outros. Cada um que tentasse ser mais valente e chegar mais alto para pegar uma goiaba branca ou goiaba maçã, como ousam difamar por ai.

Mas cá entre nós, seria uma baita covardia se Jesus colasse para participar da brincadeira com os meninos. Um cabra barbado, que rodou meio mundo de canto fazendo cego enxergar, paralítico andar, transformando água mineral em água que passarinho não bebe, morto ressuscitar e ele mesmo que foi capaz de enganar a bruxa feia da morte, disputando o topo do pé de goiaba com uns magricelos frangotes seria uma fuleragem das grandes.

O Nazareno poderia ter chegado juntos dos meninos, quando aquele mais afoito quase pegou a mais madura do pé. Faltava pouco. Meio palmo curto. A coragem daquele fedelho teve um preço. Os pés tamanho 34 escorregaram, a mão encontrou o vazio, e antes de aterrizar no terreno sem cor, o magro dorso ainda desfilou em finos galhos da goiabeira. Uma lapada de cipó. Certeza que se Jesus tivesse por ali agarraria o molecote pelas calças e evitaria aquela fratura no braço.

Possivelmente o raquítico menino clamou a presença de alguma entidade divina em meio aos seus soluços de choro, mas diferente da ministra, não teve a graça de ficar face a face com o revolucionário da Galileia. Se gritasse tanto quanto qualquer neopetencostal, quem sabe o filho do Homem não teria aparecido. Mas pera lá! o Cristo ouve até pensamento, pra quê gritar?

O pé de goiaba do edifício Maracatiara não existe mais. Já Jesus, dizem que está por aí. Inclusive subindo em árvores. Ah, danado!

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3 comentários em “Meu pé de goiaba branca”

  • O “Nazareno” certamente teria aparecido aos meninos de Candeias, a você inclusive, se tivessem sido estuprados, como ela disse que foi, dos 6 aos 10 anos. E estivessem, como ela disse que estava, com a intenção de se matar E apareceria não só na goiabeira, mas em qualquer lugar; por exemplo, no alto de um edifício, se houvesse um em Candeias à época, lugar bem mais adequado a prática do suicídio. Detalhe que você omitiu de seu comentário, não sei se por ignorância ou má fé. Aposto na 2ª hipótese já que fica clara a intenção (política) de desqualificar a futura ministra. Ministra essa a qual ninguém sabe ainda se será competente na gestão da pasta. Não sabemos porque não a conhecermos, não por essa idiotice que você escreveu. Lamento a pobreza, de forma e conteúdo,

  • Cristhian Gärtner S Camilo disse:

    Isso que é fazer do limão, uma limonada. Baita texto, parabéns!
    Ah, se JC realmente aparecesse por aqui, ia faltar chicote pra tanto vendilhão e falso profeta…

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