Nordestão de 2018 tem o pior calendário da sua história

Competição mais importante do país no primeiro semestre segue prejudicada por interesses particulares de várias fontes.

 

Jogões, casa cheia e depois tédio: após rodada de abertura, Copa do Nordeste só retorna depois de 15 dias.

 

Esse texto está saindo atrasado em três meses. O calendário já era sabido desde 11 de outubro de 2017, quando a CBF divulgou, aos moldes do que vinha fazendo em anos anteriores, o calendário diferenciado as nove federações do Nordeste. Àquela altura já sabáamos que as semi e as finais do torneio mais importante do primeiro semestre do futebol brasileiro estavam programas em plena Copa do Mundo.

Soava absurdo e nos demos ao pequeno direito de esperar que alguma correção fosse feita posteriormente. Nada feito, a CBF chegou até a autorizar a disputa durante a Copa da Série D, C e B, de modo a possibilitar que os campeonatos estaduais das federações menos ricas pudessem contar com uma grande quantidade de vagas. As datas do Nordestão, no entanto, permaneceram as mesmas.

Os campeonatos estaduais, aliás, foram os responsáveis por uma série de adiamentos do lançamento do calendário oficial. Afinal, esse ano de Copa, além de considerar um ano de poucas datas disponíveis, também é o ano das eleições da CBF. E as federações tem um peso imenso nesse pleito.

Pois bem, ainda que só signifique prejuízo para os clubes disputantes (apesar do lucro obtido pelas federações em meio a um monte de números negativos – sua participação é na receita bruta, nunca nas despesas dos jogos), os campeonatos estaduais mostraram que continuam mais fortes do que nunca, principalmente porque acharam um modo de se beneficiar da crise monstruosa que vive o futebol nacional.

Mas vamos falar da Copa do Nordeste que é o nosso papel aqui na Central 3 e no Baião de Dois.

É sabido por todos que a Copa do Nordeste é uma competição que vai muito além de ser empolgante e competitiva, envolvendo nove estados do país. Sua maior fundamentação é a capacidade de reverter os desequilíbrios financeiros causados pelas desigualdades geográficas gritantes no Brasil, coisa que afeta diretamente o futebol. Ou seja, mais do que um título almejado pelos torcedores apaixonados dos clubes nordestinos, a “Lampions” é uma questão de sobrevivência.

Decidimos lançar esse texto no dia 30 de janeiro, data da segunda rodada da primeira fase da Copa do Nordeste 2018, porque era a melhor forma de mostrar a bagunça premeditada do calendário da competição.

A rodada de abertura aconteceu no longínquo dia de 16 de janeiro, quinze dias atrás. A competição foi simplesmente “suspensa” para a realização de 3 longas e sonolentas rodadas de campeonatos estaduais. Dentre eles um emocionante clássico entre Sport e Náutico para 3.685 almas.

Depois da rodada que acontece no meio de semana em que esse texto que você lê foi lançado, teremos mais uma nova pausa de quase 15 dias.

No gráfico abaixo, passe o olho, perceba o espaçamento das datas da Copa do Nordeste ao longo dos anos de disputa dessa fase recente. E note como as datas passam a ser intercaladas e preteridas com relações às finais dos campeonatos estaduais.

Os jogos da primeira fase estão em azul, os das quartas em verde, semis em vermelho, finais em amarelo. As finais dos estaduais estão identificadas por uma cruz (de alerta!) rosa; e a data de inicio da Série A e B identificadas pelo losango branco.

 

 

Replicando a “tuitada encangada”, como diria Maurício Targino (thread é para os fracos), o panorama do calendário da Copa do Nordeste 2018 é esse aqui:

1) Nordestão abriu o ano da pré-temporada mais curta da história recente do futebol brasileiro. Quase todos os times desentrosados, estreando seus reforços.

2) Logo após a estreia, parou por duas semanas para três rodadas dos insuportáveis e deficitários campeonatos estaduais, quebrando o clima de uma primeira rodada sensacional, com gols em todos os jogos.

3) Das 6 rodadas da primeira fase, nada menos que 5 serão jogadas em dias de semana. Adivinha qual a data do único fim de semana com jogos do Nordestão? Aquele em que acontecem as maiores festas populares do mundo nas duas maiores cidades do Nordeste. Genial.

4) Depois da rodada em pleno Carnaval, um intervalo de TRINTA DIAS do com estaduais e Copa do Brasil, até que volte a se jogar a quarta rodada da fase de grupos.

5) Na altura da quinta rodada, no final de março, provavelmente estaremos nas fases finais dos insuportáveis e deficitários estaduais, tirando o foco dos jogos que decidirão os classificados para a as quartas.

6) A partir daí, mais um show de planejamento: quartas com um jogo de ida nos primeiros dias de maio, e jogo de volta nos últimos dias do mesmo mês.

7) As semifinais estão programadas para a reta final do mês de Junho, em plena Copa do Mundo, e o pior: DURANTE AS FESTIVIDADES DA SEGUNDA MAIOR FESTA POPULAR DO MUNDO que praticamente para a região.

8) As finais, na ressaca do São João, acontecerão em dias de semifinal de Copa do Mundo, já em Julho.

Vale lembrar que em 2013 e 2014, anos inaugurais do torneio – onde a “paz” ainda imperava e a competição ainda tinha status de “aposta” – foi acertado que o calendário não fosse confundido com os estaduais. Seis rodadas seguidas, e mais as quartas, preenchiam os primeiros 30 dias de futebol na região Nordeste. Coisa que descontinuou a partir de 2015.

Muitos poderiam alegar que o problema em 2018 era a falta de espaço por conta da realização da Copa do Mundo, mas não confere. Em 2014, ano de Copa no país da CBF, a solução aconteceu. Estaduais de um lado, Copa do Nordeste de outros. Vários problemas, é certo, mas um cenário muito mais positivo do que o que temos hoje.

E esse “choque de datas” tem motivações diversas: campeonatos estaduais estavam ficando esvaziados e ainda menos interessantes, o que causou a queixa das federações; mas agora percebemos que a briga ganhou outro ator: a exclusão da Globo dos pacotes de transmissão do Nordestão na TV aberta – passando agora na SBT – foi responsável por agravar ainda mais o “espaçamento” das datas do torneio mais importante.

Esse espaçamento tem um efeito nefasto na atratividade da competição, dispersa a audiência, e evidentemente diminui o potencial comercial desse torneio, que existe, acima de tudo, para salvar o futebol do Nordeste.

É possível afirmar isso por um dado muito básico: em 2001 e 2002, quando o torneio foi transformado em “Campeonato do Nordeste” (pontos corridos em turno único + semifinal), suas datas não se confundiam com as dos estaduais. Sua valorização era considerável: em valores atualizados aquelas competições estariam hoje avaliadas em cerca de 50 milhões de reais.

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Recorte da Placar de 18 de janeiro de 2002

Esse número é uma projeção aproximada do que alguns especialistas já previam para o atual Nordestão. O valor atual, no entanto, ainda está na faixa dos 35 milhões. Uma evidência de que os desarranjos e os interesses particulares de determinados atores políticos e econômicos estão sufocando e prejudicando o crescimento da competição que – volto a frisar – é a salvação do futebol regional, principalmente dos clubes de grande torcida que não contam com as cotas milionárias nos nacionais.

 

*Irlan Simões (@IrlanSimoes) é jornalista e pesquisador do futebol. Autor do livro “Clientes versus Rebeldes – novas culturas torcedoras nas arenas do futebol moderno”, e participa do Baião de Dois na Central3.

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Não deixem que a CBF combata o racismo

Texto publicado após o episódio com o Tinga no Peru,  mas que continua atual

Todo texto que propõe raciocínios fora do padrão “Racismo é a pior coisa do mundo –> órgãos responsáveis pelo futebol tem que agir –> toda punição é válida” precisa de um aviso para ser lido. Aqui vai o meu:

O racismo é detestável, inaceitável e me causa profunda tristeza e vergonha como membro da sociedade e animal (ser humano) que o pratica, mas eu não acho que a solução passe por sanções da CBF, CONMEBOL, FIFA, etc.

Aviso dado, gostaria de provocar a discussão de qual é o problema do racismo. “Discriminar alguém por causa da cor da pele” é o ato que nos causa náusea, mas o problema está nas consequências dele: o alvo do insulto se sentir mal e envergonhado por ter nascido negro e aqueles à sua volta esperarem (no sentido de “antecipar” e não necessariamente de “gostar”) que ele se sinta assim. O fato de alguém acreditar que alguma “raça” seja inferior, externalizar isso e tentar, assim, diminuir outro ser humano nos deixa putos, arrasados, deprimidos, etc.

 

A partir disso, eu acredito que o problema do racismo só estará resolvido quando chamar alguém de “macaco” for tão ofensivo quanto chamar um branco de “leitoso”, alguém que usa óculos de “quatro-olhos”, etc. Quando for algo infantil, bobo, sem qualquer sentido. Quando uma pessoa chamar o outro de macaco com o intuito de ofender e todos ao redor pensarem “quantos anos tem essa pessoa?”, quando sentirem pena do insultor e não do insultado, quando rirem ao saber de uma situação dessas, poderemos dizer que vivemos num mundo sem racismo.

 

É claro que enquanto não chegamos lá temos que agir contra casos de racismo, como os que vem acontecendo este ano no futebol brasileiro/sulamericano. Mas vejo dois motivos para procurarmos soluções mais inteligentes do que multar e tirar mandos e pontos das equipes cujas torcidas proferirem insultos racistas.

 

O primeiro é que cria-se um tabu que somado ao descrédito dos órgãos dirigentes corre o risco de ser visto como algo divertido, valente e corajoso de ser quebrado. Ao invés de se discutir (a falta de) fundamentos daquela ação e porque aquilo é errado, proibe-se e pune-se, criando mais raiva que consciência. Como a CBF não é vista como representante da sociedade (e muito menos expressão desta), também não se passa o recado de que todos acham aquilo errado, mas sim de que não pode e pronto. Assim, deixamos de nos aproximar daquele mundo onde acreditar no racismo é visto como atraso mental e passamos a torcer para que ninguém mais toque no assunto para não termos que lidar com ele.

 

O segundo é que cria-se um precedente que dificilmente encontrará argumentos racionais e objetivos para não ser aplicado a outros casos. É muito fácil para um grupo anti-homofobia pleitear que determinado clube seja punido porque sua torcida chamou um jogador adversário de “viado”, o que pode até ser legitimo mas não é consenso como o racismo (e dizer que isso é da cultura do futebol ou que a menos que o jogador seja homossexual assumido não tem problema não são argumentos convincentes). Um grupo de defesa dos valores gaúchos também poderia equiparar gritos de “gaúcho viado” a ofensas contra nordestinos (que na nossa cabeça são completamente diferentes, mas dificilmente o seriam perante a lei) e pedir punições a rodo. O raciocínio se estende a praticamente qualquer grito que se ouça num estádio, seja no Brasil ou na Europa, e no fundo só mostra como ao tentarmos objetivar nossa moral criamos consequências que vão contra ela.*

 

Como combater o racismo sem criar um tabu nem criar um monstro que se vire contra o futebol depois? A resposta talvez pareça utópica, mas desacreditá-la também é desacreditar no mundo em que pretensamente cremos e queremos salvar: aqueles que acham que uma prática é inaceitável devem demonstrar isso e juntos fazer com que ela seja inviável. Um jogador vítima de ofensas racistas deve ter o apoio de todas as torcidas para que fique claro que chamar alguém de macaco não o faz fraquejar, mas sim fortalecer, um time cuja torcida agiu de maneira preconceituosa tem que ouvir “racista! racista! time de racista!” quando jogar fora de casa. Uma torcida pode ir toda pintada de negro em apoio a seus jogadores, jogadores podem parar partidas caso gritos racistas sejam ouvidos, clubes podem adotar diversas ações para combater o problema e jornalistas podem usar seu espaço para demonstrar que ser racista no final das contas é extremamente bobo. Algumas dessas instâncias já são usadas, mas todas tem que entrar em ação juntas e a cada caso aumentarem de intensidade, para que a sociedade demonstre que aquilo não é aceitável, sem usar órgãos que não tem mais credibilidade nem pra fazer um calendário.

 

Desse modo, o racista entenderá que o mundo está em desacordo com ele e não que a CBF quer proibí-lo de se expressar (e a CBF proíbe tantas coisas que são legítimas e deveriam ser incentivadas que ficaria difícil distinguir os casos) e estará mais disposto a ouvir e mudar de atitude. E se a sociedade futebolista achasse errado chamar os adversários de viado provavelmente tal atitude se tornaria inaceitável, enquanto “carioca vagabundo” seria aceito caso essa fosse a opinião geral. É uma ideia com raízes anarquistas que num mundo cada vez mais ligado ao que é oficial (em oposição ao que é real e espontâneo) talvez soe estranha, mas no final é só uma retomada a como as coisas funcionariam se os órgãos oficiais não tentassem emular tal processo.

 

 

* acredito que nossa moral é subjetiva, mas procuramos critérios objetivos para justificá-la. Como citado, aceitamos xingamentos a gaúchos, mas não a nordestinos. Poderia se argumentar que esses são minoria e aqueles não, mas aceitamos xingamentos homofóbicos num estádio. Um argumento possível é o de que aquilo faz parte daquele ambiente, mas isso abriria precedente para peruanos dizerem que por lá chamar de macaco faz parte do ambiente futebol. Uma saída seria dizer que isso é tão ofensivo que não se aceita que algo assim exista (o que já seria um pouco autoritário, mas tudo bem), mas é público que os rivais do Liverpool chamam seus torcedores de “favelados que comem ratos” e ninguém se ofende a esse ponto com isso. Enfim, quanto mais tentamos definir regras objetivas mais nos afundamos em argumentos ad hoc que dificilmente param em pé. Outro exemplo,  ninguém é a favor do estupro, mas muitos achavam normal gritar para Silvia Regina: “juíza vagabunda, eu vou comer sua bunda e sua buceta, ê, ê, ê, ê, ê, ê, vou chupar suas teta”.

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