Dossiê Bielsa: balada para um louco

Por Felipe Bigliazzi

“La vida, en líneas generales, es construcción. Y de vez en cuando se logran los objetivos, pero lo interesante no es ser exitoso, porque el éxito es una cosa que se consume instantáneamente, porque una vez que se logra, se desvanece y se pierde. Por lo cual, si uno deposita toda la atención al éxito, eso duraría muy poco. La construcción, el desarrollo, la búsqueda, es lo que consume el tiempo de todos nosotros” (Marcelo Bielsa)

O último sopro de esperança esta no coração dos loucos. Esses românticos idealistas que driblam o mundo burocrático e triunfalista. Peço licença para repassar a carreira de Bielsa, esse louco distinto, que fugindo do lirismo menotista ou do biladismo rústico, abriu a terceira linha ideológica do futebol da Argentina.
El Loco nunca abdicou de um sonho futebolístico que consistia em vestir a camiseta do Newell’s profissionalmente. Sua carreira como zagueiro é curta, resumidos em três cotejos oficiais com a equipe profissional de seu querido Ñuls em 1976. Uma grave lesão abreviava sua trajetória no modesto Central Cordoba de Rosario.

Sem resignar ao destino, adquire uma banca de jornal, estuda Educação Física, até finalmente realizar seu segundo objetivo e tornar-se diretor técnico. A primeira chance vem com o time da Universidade de Buenos Aires. Em 1982, ao regressar a Rosario, pede uma chance a seu mestre Jorge Griffa, coordenador das divisões menores do Newell’s. Griffa dá a Bielsa a oportunidade de trabalhar com a sexta divisão do clube rojinegro. Numa aventura atroz, recorre o interior da Argentina em seu Fiat 147 buscando por jovens talentos entre 14 e 15 anos. Entre os garotos pinçados estavam Eduardo Berizzo, Ricardo Lunari e Mauricio Pochettino. Dessa forma começava a ser formado o mais exitoso time da história do Newell’s.

 

NEWELL’S OLD BOYS( CAMPEÃO APERTURA 1990 E TEMPORADA 90-91)


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Bielsa assume o time principal no final 1989 respaldado pelos excelentes resultados com o time juvenil. Aquela geração – dos nascidos entre 69-72 – tinha entre suas figuras Gamboa, Raggio, Berti, Lunari e Pochettino. Assim, coube a Bielsa mesclar seus pupilos com a base do elenco campeão de 87-88 sob o comando de José Yudica . O goleiro Scoponi, o volante Llop e o meia Tata Martino faziam parte do time que sagrou-se campeão argentino e vice da Libertadores em 88. O 4-3-3, esquema emblema na história leprosa, foi mantido.

Bielsa já plasmava a sua ideia de pressão constante e ímpeto voraz pelos lados do campo. Berizzo e Saldaña tinham grande projeção, por isso Llop ficava na contenção, quase como líbero, protegendo a jovem e promissora dupla de zaga formada por Gamboa e Pochettino. Tata Martino e Dario Franco eram os condutores, enquanto Julio Zamora e Ruffini davam profundidade pela pontas, servindo o recém contratado Ariel Boldrini. Timaço, com jogadores multi-função e grande mentalidade vencedora.

O Clássico de Rosario foi infartante, configurando o estopim para a arrancada. Um 4×3 em pleno Arroyito com um Newell’s furioso. Começava o caminho para a gloria. Na última rodada, um empate contra o San Lorenzo no estádio do Ferro Carril Oeste, deu o título nacional ao quadro rojinegro. Com o jogo encerrado em Caballito e a vantagem conservada em apenas um ponto, sobrava esperar o desenlace do confronto do River de Passarella, seu fiel perseguidor, que parava nas mãos de Pato Fillol, então arqueiro fortinero. O gol de Gareca para o Velez, nos últimos minutos, definia o Apertura, calando o Monumenal. A conquista foi sintetizada com o grito eterno de Bielsa: Newell’s Carajo, Newell’s Carajo!  No ano seguinte unificaria o título da temporada ao bater o Boca nos pênaltis em La Bombonera.

 

NEWELL’S OLD BOYS(CAMPEÃO CLAUSURA 1992 E VICE DA LIBERTADORES)

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O toque de bola e o jogo vistoso sempre foram os emblemas históricos do Newell’s. Bielsa foi além na sua segunda temporada, implementando sua filosia de intensidade e verticalização. Em 1992, nascia o esquema 3-3-1-3. Lllop foi recuado para a zaga e Gamboa tornou-se líbero; Pochettino completava o tridente defensivo. Eduardo “Toto” Berizzo foi puxado para a função de primeiro volante, ao passo que Julio Cesar Saldaña e Alfredo Berti fechavam a linha do meio-campo. Gerardo “Tata” Martino, no último tramo de sua carreira, ficava liberado como enlance, fechando o losango. No ataque, toda a volúpia e troca de posição intensa entre os ponteiros Zamora e Mendoza.

“Pajaro” Domizzi era a referencia de área. Esse timaço revolucionou o futebol argentino, levando o Clausura daquele ano com fúria de gol. O clássico contra o Central foi um passeio: 4 a 0 com show de Domizzi. A conquista foi consumada contra o Platense em Vicente Lopez, naquele que seria o último jogo de Bielsa. Antes disso, o trago amargo no Morumbí e a derrota na decisão da Libertadores frente ao São Paulo de Telê.

 

VELEZ SARSFIELD(CAMPEÃO CLAUSURA 1998)

 

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Bielsa esteve no México durante quatro anos como coordenador das categorias de base do Atlas de Guadalajara. Do jjhprojeto saíram grandes jogadores que mais tarde serviriam a seleção tricolor, casos de Rafa Marquez, Pável Pardo e Jared Borgetti. No comando do time principal os êxitos não o acompanharam. Eis que, em 1997, Bielsa voltou para a Argentina, assumindo o Velez. O quadro de Liniers tinha a base multi-campeã dos tempos de Bianchi. José Luis Chilavert, Mauricio Pelegrino – atual treinador do Estudiantes – Raul Cardozo, Flavio Zandoná e Chrstian Bassedas seguiam no Fortín.

Bielsa chegou com uma mentalidade distinta, que contrastava com o jogo amarrado de Carlos Bianchi. No 3-3-1-3 o Velez conquistou o título do Clausura 1998 de forma arrasadora: 14 vitórias, 4 empates e apenas uma derrota, com saldo de 39 gols marcados e 14 sofridos. A ideia de jogo estava consolidada com a pressão alta exercida por Chrstian Bassedas e Lobo Cordone, além da superioridade numérica em todos os setores com triângulos constantes na linha de passe. Victor Sotomayor era o líbero da defesa, com Pellegrino e Flavio Zandoná – aquele mesmo que ficou famoso pelo soco em Edmundo – dando amplitude pelos lados na saída de bola. Compagnucci dava sustentação como volante central, ao passo que Raul Cardozo e “El Turquito” Husain fechavam pelos flancos. Patricio Camps foi o enlace durante a campanha. Martin Posse, rápido e incisivo, seria o herói ao anotar o gol da conquista contra o Huracán. A passagem curta e vitoriosa foi encerrada após um desentendimento com os figurões do elenco, principalmente com Chilavert.

 

SELEÇÃO ARGENTINA(1999-2002)

 

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Nem bem desembarcou para assumir o Espanyol de Barcelona, chegou o convite de José Pekerman, então diretor de seleções na AFA, para ser o treinador da Argentina nas eliminatórias. Corajoso e fiel a sua convicção, Bielsa armou uma seleção ultra-ofensiva. A campanha foi fulminante com 13 vitória e 4 empates. O ataque foi o mais positivo com 42 gols. A única derrota foi no Morumbi para o Brasil de Luxemburgo, em noite recordada pela grande atuação de Alex, Vampeta e Ronaldinho Gaúcho. A defesa tinha Vivas e Samuel como stoppers e Ayala como líbero. Com a lesão de Vivas, um dia antes da estreia na Copa contra a Nigéria, Pochettino ganhou a titularidade pela lado direito da zaga. Fernando Redondo, enquanto o joelho aguentou, deu sua qualidade ímpar como primeiro volante.

Cholo Simeone assumiu o posto com seu habitual ímpeto furioso na marcação. Nas alas a Argentina estava muito bem servida com Juan Pablo Sorin e Javier Zanetti. La Brujita Veron, em sua melhor fase no futebol italiano, era o condutor natural.No mundial, esgotado fisicamente e com uma serie de lesões, La Brujita ficou bem abaixo do nível das eliminatórias, dando lugar a Pablo Aimar no jogo final contra a Suécia. Riquelme, em grande fase no Boca, foi preterido, causando comoção nacional. Os ponteiros eram Ariel Ortega e Claudio “Piojo” Lopez. Crespo e Batistuta protagonizaram a polêmica na Argentina, originando a discussão sobre a utilização de dois “nueves” no time de Bielsa. A Argentina, como todos sabem, amargou a eliminação na primeira fase. A alta exigência física imposta pelo estilo Bielsa pesou demais para um elenco que vinha no final da temporada europeia.

 

SELEÇÃO ARGENTINA(CAMPEÃ OLÍMPICA DE ATENAS 2004)

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Apesar das pressão midiática, Julio Grondona decidiu manter Bielsa após o fracasso na Copa. Fiel a suas convicções, El Loco implementou uma intensa renovação com a base campeã mundial sub 20 de 2001. Na Copa América do Peru, a Argentina teve uma atuação impecável. Na final, após dominar amplamente o Brasil de Parreira, acabou tomando o empate agônico de Adriano e perdendo o título nos pênaltis. Apesar do trago amargo, o time estava preparado para fazer história nos Jogos olímpicos de Atenas.

O esquema tático foi o ambicioso 3-3-1-3, com Andrés D’Alessandro como condutor. A zaga tinha El Ratón Ayala como líbero, liderando a defesa composta por Fabricio Coloccini e Gabriel Heinze. No meio campo, Mascherano já demonstrava aos 20 anos, caráter de sobra como base de sustentação no meio; Lucho Gonzalez e Kily Gonzalez bem abertos, completavam o tridente. As jovens estrelas rosarinas, Mauro Rosalez e Chelito Delgado, foram os escolhidos como ponteiros. Carlitos Tevez, grande estrela do Boca Campeão do Mundo de 2003, seguia imparável no comando do ataque, vestindo o traje de herói e o rol de artilheiro. A medalha de ouro foi conquistada com sobras: 6 vitórias, 17 gols marcados e nenhum sofrido. Bielsa deixava o cargo de cabeça erguida.

 

SELEÇÃO CHILENA(2007-2010)

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Após três anos sabáticos em sua fazenda de Máximo Paz, na Província de Santa Fé, Bielsa voltava ao futebol diante de um duro desafio com La Roja. Nesse período, El Loco se dedicou a assistir minuciosamente videos e mais videos de futebol, trazendo novos conceitos e variações ao 3-3-1-3. O esquema seria mutante, de acordo ao adversário, priorizando a rotação constante em todos os setores do campo. Exigindo liberdade total, Bielsa aceitou a proposta de dirigir o Chile nas eliminatórias de 2007. La Roja vinha destruída após a vergonhosa campanha na Copa América da Venezuela. Bielsa armou um time veloz, dinâmico e audaz. O Chile conseguiu a classificação de forma contundente, atrás apenas do Brasil. Foram 10 vitórias, 3 empates e 5 derrotas.

O ataque marcou 32 gols, conduzidos pelo tridente Alexis Sanchez, Mark Gonzalez e Chupete Suazo. Matias Fernandez e Jorge Valdivia revezavam na armação. Isla e Beausejour eram os alas, com o jovem Vidal, muitas vezes utilizado na função pelos flancos. Carmona e Marco Estrada se alternaram na posição de primeiro volante. A zaga tinha Gary Medel e Jara como stoppers, além de Waldo Ponce como líbero. No mundial as coisas não saíram bem. Problemas físicos de jogadores fundamentais, como Suazo e Matias Fernandez, pesaram contra o poderio ofensivo de Espanha e Brasil. Vítima das bolas paradas, La Roja seria eliminada pelo Brasil nas oitavas.

Bielsa deixava o Chile com um time fiel a um estilo, encarando de frente aos gigantes. O documentário Ojos Rojos retrata a bielsamania no Chile.

 

ATHLETIC BILBAO( VICE LIGA EUROPA E COPA DO REI 2011-12)

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Antes de assumir o time principal do Barcelona, Pep Guardiola foi a Máximo Paz para aprender os métodos de Bielsa. Antes da decisão da Copa do Rei de 2012 contra o Bilbao de Bielsa, Guardiola foi enfático ao elogiar o treinador argentino: “Estamos diante do melhor treinador do planeta”. O Barcelona e o tiki taka também trouxeram uma reflexão nos ideais bielsistas. Novamente mergulhado em videos e mais videos, Bielsa apresentou novos sistemas em sua passagem pelo País Vasco.

No Bilbao, o 4-3-3 culé, tão em moda na liga espanhola, foi o esquema majoritário. Seu modelo consistia na alternância constante na linha defensiva com o deslocamento de Javi Martinez e dos alas Iraola e Aurtenetxe. Itturaspe dava sustentação aos excelentes meias bascos. Ander Herrera e De Marcos iniciavam uma pressão sufocante nos últimos 40 metros rivais, com Susaeta e Iker Munian bem abertos no combate aos laterais. Fernando Llorente, a puro gol, era a referência de ataque. Um Bilbao goleador, intenso e brigador que chegou até a final da Liga Europa passando por cima de PSG, Manchester United, Schalke 04 e Sporting Lisboa.

 

OLYMPIQUE MARSEILLE (2014-15)

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No começo da atual temporada, a bielsamania invadiu o sul da França. Após outro ano sabático, Bielsa decidiu assumiu um Olympique de Marseille em crise. Na temporada anterior, o time mais popular da França terminou a Ligue 1 em sexto lugar, fora das Copas europeias e 29 pontos atrás do flamante campeão PSG. Bielsa não ganhou nenhuma contratação de peso. Tendo em vista as fragilidades defensivas e o elenco enxuto, Bielsa decidiu não implementar seu 3-3-1-3 nos primeiros meses.

No 4-2-3-1, conservador para seus padrões, o Marseille alcançou o título de inverno, graças aos gols de Andre Gignac e alta intensidade de pressão em campo rival. A dupla de volantes foi composta por Romao e Imbula. Após os resultados adversos, o PSG e o Lyon ultrapassaram o Marseille nos primeiros jogos de 2015. Bielsa, enfim, decidiu voltar a seu esquema fetiche. No 3-3-1-3, o Marseille se acertou com o togolês Romao deslocado para formar o tridente defensivo ao lado de Fanni e Morel. Imbula ficou como único volante central, dando sustentação aos alas Djedje e Mendy. Dimitri Payet, é o condutor e representante do time de Marseille na seleção francesa.

Thauvin e Awey são os ponteiros, com o recém contratado Lucas Ocampos como boa opção pelo setor. Para o comando do ataque o belga Michy Batshuayi vem sendo o destaque com 8 gols em 2015, ocasionando uma boa disputa pela titularidade com Gignac. O time de Bielsa tem o melhor ataque da liga francesa com 60 gols marcados. Faltam 8 rodadas para o final do campeonato, com o Marseille distanciado 2 pontos do milhonário PSG, seu rival na próxima rodada(dia 5 de Abril) no remodelado Vélodrome. Mais do que o título, ou a classificação para a Champions League, Bielsa vai deixando outra vez seu legado na Europa. Pochettino no Tottenham, Berizzo no Celta de Vigo e Jorge Sampaoli em La Roja são alguns dos profetas do bielsismo na elite do futebol mundial.

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