A vida como um musical dos anos 30

Por Luiz Felipe de Carvalho

Como em todos os dias, meus pés tocaram o chão essa manhã com uma vontade enorme de voltar ao quentinho da cama. Na minha cara amassada pelo travesseiro podia-se facilmente ver meu desagrado com aquela situação. Afinal, que tipo de gente acorda às 5:25 da manhã?

Depois do banho voando e do café engolido, chega a hora de sair. Ainda é quase noite. É a hora que costumo chegar em casa aos finais de semana! É muita tristeza pra um só coração.

Na rua, as mesmas coisas de sempre. A mesma menina passa ao meu lado de bicicleta. O mesmo frio que, à medida que vou andando, se transforma em calor. O mesmo ônibus. O mesmo cobrador com cara de bravo (acho que todos têm). O mesmo troco. O mesmo horário. Tudo igual, como se eu fosse apenas uma peça em uma imensa engrenagem. Na cabeça, as mesmas paranoias e a cara cada vez mais fechada.

Para! Rebobina essa fita.

Como em todos os dias, acordo ao som de Alceu Valença em alto volume. Me levanto de um pulo só e vou dançando até o banheiro, uma dança imaginária de olhos fechados, e repentinamente mil serpentinas e confetes colorem meu quarto enquanto o frevo toma conta de tudo. Entro no banho e Alceu dá lugar a Axl Rose. O chuveirinho se transforma em meu microfone, o som da água é o som da minha plateia. Sou um astro de rock, e dentro de mim sinto toda a adrenalina que isso traz.

Depois do banho, tomo um café relaxado ao som de Marisa Monte. Até o café amargo desce mais suave com essa voz. Tenho a alma leve, o coração momentaneamente tranquilo. Em seguida a Nona Sinfonia de Beethoven me ajuda a escovar os dentes com muito mais energia. Em minha mão esquerda materializa-se uma batuta, com a qual conduzo uma orquestra gigantesca, toda minha.

Ao sair à rua, ainda no lusco-fusco da manhã, Leonard Cohen me acompanha trazendo profundidade à escuridão. A menina de bicicleta passa por mim, mas vejo em seu semblante circunspecto um mar de poesia. Entendo sua alma, embora nunca tenhamos nos falado. Não existe mais rotina. No ônibus todos juntos cantam o refrão de “Hey Jude”. Até o cobrador com cara de bravo se rende à magia dos Beatles. Chego ao trabalho disposto, renovado.

A vida devia ter fundo musical. Fred Astaire é que era feliz.

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