A volta do Futebol Urgente

Por Leandro Iamin

Quando, em março de 2016, o Fernando Toro resolveu parar com o seu podcast Futebol Urgente, doeu em mim em um lugar que os fidelíssimos ouvintes – este podcast não tinha ouvintes, tinha torcedores – talvez não tenham se atentado: a ruptura não envolveu só o podcast. Toro, de presença tão marcante, preferiu se afastar também dos nossos outros lugares de encontro em comum. Algumas vezes me perguntei se eu era, como amigo, parte das coisas das quais ele deveria se afastar mesmo. Abrir mão de uma convivência em nome de um sonho que não é seu às vezes é difícil. O sonho do Toro? Vencer o Google. Sumir um pouco, mas de forma efetiva, sumir mesmo. Colocar os temas de seu podcast em prova. Quatro anos depois, mais magro e mais leve, colhendo os frutos da paternidade e ajudando o pai que deu sustos de saúde, o Toro voltou.

Não era difícil produzir a pauta do Futebol Urgente. Olhando assim, de passagem, o menos engajado vai classificar o quase-monólogo do Toro como uma ode contra o tal futebol moderno. É simplista, esta visão. O Futebol Urgente tinha a missão maior de ridicularizar o retrato contemporâneo do futebol. Dar a ele uma moldura coerente com o absurdo que dele vaza. Ou você acha que o Toro deveria falar sério, em tom crítico, sobre a notícia de que um técnico no México colocou máscaras de lobos em seus zagueiros e de cachorros em seus atacantes? Vocês lembram do time espanhol que criou um “tinder” só para torcedores deste time, a fim de tentar, por lógica, garantir o nascimento de bebês comprometidos com este clube? E quando o Jornal Nacional fez reportagem em plena Copa do Mundo entrevistando uma fonoaudióloga para saber como gritar gol sem estragar a voz? É deste tipo de pauta que é feito o núcleo duro do Futebol Urgente.

O Fernando Toro acredita nos Iluminattis e é contra não poder recuar a bola para o goleiro pegar com a mão. Ainda não superou a ordem das chuteiras coloridas e segue intolerante com outros símbolos hoje banais a respeito do futebol que hoje consumimos. Tá mais do que liberado não endossar todos os exageros. Quem conseguir isso certamente vai encontrar, na retórica do Toro, alguma coisa paralisante, que faz pensar, e um tanto de coisa entusiasmante, que desperta paixão. Toro é um agitador intelectual, um provocador dos nossos hábitos e um inspetor de nossas miudezas cotidianas. Consegue linkar a final da Supercopa da Libertadores de 1992 com o atendimento porco dos Correios e encontrar um elo entre Liverpool x Saint Ettiene de 1977 e a proliferação de drogarias nos bairros da zona leste de São Paulo. Um desafio ao formato, à linguagem, um grosso caldo de ideias, nem sempre palatável, mas que só poderia existir desta forma, nunca de outra.

O Futebol Urgente voltou hoje, e em alguns dias estará disponível nos feeds da Central 3. VOCÊ OUVE O EPISÓDIO DE HOJE AQUI. Em quatro anos a Central 3 mudou muito, mas, que bom, não o suficiente para que o Toro, ao voltar, se sentisse um intruso. As questões irritantes ao nosso redor continuam mais ou menos as mesmas, seja em dia de futebol ou não. Ver o Torito mais leve e liberto do que estava quatro anos atrás, para quem goza de sua amizade, é muito bom e faz valer a espera. A volta se deu assim, sem muito acerto, num papo rápido, sem cerimônia. Nem deu tempo de fazer os feeds (em alguns dias estarão prontinhos!). Toro voltou pela vontade de voltar, como pausou por vontade de pausar. Tem muito pra falar. Pelo ridículo do futebol, pelo bizarro das ruas, pela redenção da paciência, eis, de volta, o Futebol Urgente!

OUÇA O FUTEBOL URGENTE DE HOJE

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2 comentários em “A volta do Futebol Urgente”

  • Rodrigo Antônio disse:

    Ouvir comentários sobre depreciativos sobre jogadores que atuam na Europa como incomparáveis com outros jogadores do passado e, no final, ouvir que o comentador não assiste futebol europeu desde 2002 não pode ser considerado uma ode. Enfim, tem quem goste. Vale pelo iamim.

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