A Volta do Travessia

Por Leandro Iamin

Por dois anos a Central 3 gravou o Travessia. Eu tinha uma cisma com o Fernando Vives. Tinha vontade de trabalhar com ele – me tornar amigo seria consequência. Me recordo do jeito cordial com que ele e o Caio Quero abordaram a gente com uma ideia de podcast de MPB. Entre janeiro de 2016 e dezembro de 2017, fizeram 94 programas. Isso significa que estudaram e comentaram 940 músicas, colocando na mesma sala, testa com testa dançando bolero, aquele clássico, a nova revelação do século, a bombinha lado B, o petardo cult, o brega e o erudito. A curadoria de Quero e Vives sempre teve esta preocupação de empurrar as paredes do universo afetivo e daquilo que eles já conhecem – e eles conseguiram um elenco de música efetivamente eclético.

Um episódio com canções sobre despedidas, outro sobre ditadura. Tecnologias, duetos, noite, homossexualidade, Clementina de Jesus, Gilberto Gil, sexo, cidades, marchinhas de carnaval, gênios e toscos, João Bosco, Bahia, ah! Caio e Fernando chegavam em nosso antigo estúdio, colocavam na mesa livros, materiais de estudo que os ajudava a habilitar a fala, e, mais que uma dezena de músicas, ganhávamos, com o podcast Travessia, uma dezena de contextos sem verdades absolutas: não poucas vezes a dupla saboreava a discordância estética ou o impasse sobre determinado artista: foi bão mesmo ou a história inflou o nome? Sem juízos de valores mais profundos, que os apresentadores deste podcast gostam é do registro.

O Travessia foi, para a Central 3, um retrato do tempo do podcast em si. Hoje, dois anos inteiros depois, em pleno aquecido “ano do podcast”, quando a gente fala deste programa a gente esbarra no quanto mudou o formato de divulgação deste nosso modal de comunicação. Por exemplo: de lá para cá, plataformas como o Spotify e o Deezer, feitos para músicas, agora estão também envolvidos com os podcasts. E, por ironia da burocracia, as maiores plataformas musicais de nossos tempos não terão o Travessia no catálogo, já que os direitos autorais de uma canção se contabilizam apenas quando o camarada clica direto no artista. Um programa como o Travessia “roubaria” cliques destes artistas nestas plataformas, e por isso os bailes de Vives e Quero terão este arzinho de 2016, dependendo do boca-a-boca mais do que o normal, como era o podcast pouco tempo atrás.

Outra ironia é que o programa de música brasileira seja gravado direto de Sidney, Austrália, de onde Vives entrará por telefone. Encerramos temporariamente o projeto por causa destas demandas da vida, somadas às necessidades profissionais dos dois – afinal, Travessia é diletantismo, eles, jornalistas, fazem por prazer. O fato é que hoje, dia 21 de janeiro, quatro anos exatos depois da gravação do programa 1, Vives e Quero voltarão ao Travessia. Estamos todos sorrindo por aqui. Eu já tenho em mãos a lista de músicas dos episódios 95 e 96, respectivamente sobre voltas e misticismo. O tempo passou, o Brasil mudou, a necessidade da gente ouvir música (para esquecer um pouco do noticiário) cresceu. Ela, a música brasileira, tem, em sua mistura e complexidade, a capacidade de explicar tanto sobre nossa trajetória, geografia e anseios. Eles, jornalistas e apaixonados que são, saberão nos contar.

Vives e Quero serão de novo, em 2020, nossos companheiros musicais, juntando-se ao Luiz Felipe de Carvalho, que assina coluna mensal de música em nosso site e esperou pacientemente a volta destes rapazes. Idioma lindo, ritmos infinitos, letras apaixonadas, humor, escracho, rebeldia, resistência, regionalismo, identidade, enfim. A música brasileira merece a volta de Fernando Vives e Caio Quero. Viva!

OUÇA AQUI OS PODCASTS ANTIGOS DO TRAVESSIA!

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Um comentário em “A Volta do Travessia”

  • Cristhian Gärtner dos Santos Camilo disse:

    Aplaudindo aqui, em pé!!!!

    Sejam bem-vindos de volta!
    Fizeram muita falta!
    (maratonei diversos programas antigos, nesses 2 anos. Conheci muito da MPB por causa de vocês).

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