Aranha Titânica

Por Luiz Felipe de Carvalho

Como uma aranha se mantém viva, e ativa, após perder cinco de suas oito pernas? Se o nome dessa aranha for Titãs e as três pernas restantes se chamarem Tony Belloto, Sérgio Britto e Branco Mello, a resposta é simples: basta continuar caminhando. Fui assistir recentemente ao show Titãs – Trio Acústico, que está em turnê pelo Brasil e pude comprovar que a banda segue viva, e muito viva, e ainda tentando se reinventar.

Antes de mais nada devo dizer que pra minha analogia da aranha funcionar eu tive que ignorar Ciro Pessoa, o nono integrante dos Titãs, que deixou a banda antes mesmo do lançamento do primeiro álbum (convenhamos, eu não poderia criar uma aranha com nove patas). Afora essa pequena licença poética a banda já perdeu, pela ordem: Arnaldo Antunes (1992), Marcelo Frommer (2001), Nando Reis (2002), Charles Gavin (2010) e Paulo Miklos (2016). Tirando Marcelo Frommer, que faleceu em 2001 vítima de um acidente de trânsito, todos os outros saíram por questões pessoais – ou seja, saíram porque quiseram. Isso sem contar o primeiro baterista, André Jung, que foi substituído por Gavin bem no comecinho da carreira da banda. São muitas perdas, e com nomes pesados no meio. Poucas bandas resistiriam.

Uma coisa que sempre me impressionou foi a quantidade de talentos, alguns múltiplos, oriundos de um só conjunto musical. Arnaldo Antunes além de cantor e compositor é escritor e poeta, com diversos livros lançados. Charles Gavin tem um trabalho importante de resgate e relançamento de discos antigos, muitos fora de catálogo, além de apresentar “O Som do Vinil” no Canal Brasil (pra mim o melhor programa da TV brasileira). Tony Belloto é escritor de sucesso, e já teve alguns de seus livros adaptados para o cinema. Paulo Miklos é ator, e tem no currículo no mínimo uma atuação genial, no longa “O Invasor”, de Beto Brant. Isso sem contar os talentos de compositor de Nando Reis, com uma carreira solo de sucesso absoluto.

Eu sempre gostei dos Titãs, mas nunca fui fanático. Deste modo, em minha cabeça, sempre achei que Branco Mello, Sérgio Britto e Marcelo Frommer fossem os elos “menos talentosos” da banda. Fui ao show com um grande amigo, este sim fanático por eles. E ele disse que, de fato, Branco Mello e Marcelo Frommer, embora talentosos às suas maneiras, sempre tiveram mais um papel de “cola”, aquelas pessoas que mantém a banda unida. Já sobre Sérgio Britto eu estava enganado: ele sempre fora um dos principais compositores em todas as fases da carreira dos Titãs. O que acontecia, e esta é uma conclusão minha, é que provavelmente ele ficava um pouco eclipsado por personalidades marcantes como as de Arnaldo Antunes, Paulo Miklos e Nando Reis.

O show Trio Acústico é dividido em três partes. Na primeira os três amigos (ou “irmãos”, como eles gostam de se referir uns aos outros) tocam algumas músicas juntos, e conversam um pouco com o público. Na segunda cada um fica sozinho no palco por duas ou três canções, e contam histórias relacionadas a elas. E na terceira eles recebem a companhia de Beto Lee (guitarra) e Mário Fabre (bateria) e tocam mais algumas canções com um formato semelhante ao “Acústico MTV”.

Não vou dourar a pílula: musicalmente o show não apresenta grandes novidades, nem estilísticas nem de escolha de repertório. Não há, por exemplo, nenhuma canção de “Nheengatu”, o ótimo disco lançado em 2014. Penso que a ideia de conceber um repertório baseado em clássicos foi fazer a emoção do público aflorar, já que boa parte das canções faz parte da memória afetiva da plateia. Eu, por exemplo, confesso que não era muito fã das músicas de “auto-ajuda” dos Titãs, tipo “Enquanto houver sol” e “Epitáfio”, mas me peguei emocionado ao ouvi-las no show.

Mas não é isso que realmente importa.

A melhor parte do show, sem dúvida alguma, é a segunda parte. Entre todos aqueles talentos dos Titãs que citei anteriormente, faltou um que só descobri neste espetáculo: o talento de contadores de histórias. Sozinhos no palco, cada um trata de entreter o público com “causos” relacionados às canções que cantarão. É uma delícia de ouvir, especialmente a história da composição de “Cabeça Dinossauro” contada por um Branco Mello que demonstra excelente timing cômico, notadamente quando se refere a um certo travesseiro de seu então colega de banda Arnaldo Antunes. Esse pedaço do show ainda guarda uma surpresa inédita: Tony Belloto exibindo seus dotes de vocalista, algo que ele nunca tinha feito anteriormente. Não são lá grandes dotes, mas isso não importa tanto quando temos carinho pelo personagem.

Se diretor do espetáculo eu fosse, certamente estenderia o segundo trecho e diminuiria substancialmente os outros, talvez até eliminando aquele com a banda completa, que parece uma fatia de limão colocada no meio de uma lasanha (e eu não faço a menor ideia de porque escolhi essa metáfora culinária pra explicar meu descontentamento). Com essa decisão os custos da turnê diminuiriam, o Beto Lee e o Mário Fabre poderiam fazer outras coisas mais úteis, já que seus talentos são pouco utilizados nos arranjos, e a plateia ficaria mais feliz e poderia ouvir mais histórias dos incríveis Titãs.

Tão incríveis que além de músicos, compositores, cantores, produtores, escritores, apresentadores, poetas, atores, são também comediantes “stand up”. Ou “sit down”, no caso. Não importa. Essa é uma aranha de três pernas titânica, um bicho escroto da mais alta envergadura. Que viva ainda por muito tempo.

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