Baby, baby, baby

Por Luiz Felipe de Carvalho

Teve um concurso uma vez, um concurso muito estranho. Era o concurso “A Melhor Música Chamada Baby de Todo o Universo”. Esse concurso demorou um tempão pra terminar, porque ninguém foi avisado de que o concurso tava rolando. Daí ninguém se inscreveu, e quem se inscreveu o fez sem saber que estava se inscrevendo. Dizem que o concurso só passou mesmo a existir quando um colunista escreveu sobre ele num site “central qualquer coisa” da internet. Antes disso o concurso até existia, mas não sabia que existia. Pra participar do concurso a música tinha que chamar “baby”, só “baby” mesmo, sem nenhum “I love your way” depois, nem nada. A gente não sabe exatamente quantas pessoas concorreram, mas o concurso teve três finalistas, isso sabemos. Sabemos também que “baby” quer dizer “bebê”, mas quando usam na música quase nunca quer dizer “bebê”, quase sempre quer dizer “amor”, “queridx”, “benzinho”, “xuxuzinho”, “meu pitel” e coisas do tipo.

O primeiro que concorreu sem saber que tava concorrendo foi o Caetano Veloso. Isso foi bem lá atrás, em 1968. A irmã dele, a Maria Bethânia, chegou nele e pediu uma música que tinha que chamar “Baby” e tinha que falar no final “Leia na minha camisa, baby I love you”. Tinha uma ousadia, porque ninguém usava muito essa coisa de inglês nas músicas em português. Mas ousadia era com Caetano mesmo, aí ele foi lá e fez. Resolveu lançar no disco “Tropicália ou Panis Et Circencis”, que ele gravou com uma porção de gente, mas a irmã dele resolveu que não queria participar do disco, aí ele deu pra uma amiga que cantava muito, a Gal Costa, gravar. A Gal Costa gravou, com um arranjo cheio de violinos, floreios, tempos quebrados, feito pelo Rogério Duprat, e foi um sucesso. Foi o primeiro sucesso da Gal, e depois outras pessoas gravaram a música, inclusive a irmã Bethânia.

Quase dez anos depois, em 1976, teve o Erasmo Carlos. As regras do concurso não falavam nada sobre parceiros (aliás, não falavam nada sobre nada, porque não existiam), e daí o Erasmo chamou o Roberto, que tinha o mesmo sobrenome que ele. Mas quem lançou foi o Erasmo, num disco chamado “Banda dos Contentes”. Erasmo pede pra seu “baby” abandonar um pouco o feminismo por ele. A letra é legal, ele passa o tempo todo argumentando, querendo que ela falte num compromisso ativista pra sair com ele, falando que “afinal, será que o amor não vale nada?” e coisas assim, e aí tem um “mas”. Alguém falou que o que vem depois do “mas” é o que mais importa, então o gigante gentil consegue sua redenção com as feministas (será?), dizendo “mas se não dá vamos fazer o nosso amor num outro dia”. Ou seja, ele quer muito que seja hoje (deve estar necessitado, coitado), mas se não der, paciência, ele respeita, segue o barco.

Então teve o Raul Seixas, em 1980. Sorte do Raul Seixas, porque se fosse hoje ele tomaria uma surra de pinto de anta na rua. “Pedófilo!”, “bandido!”, “sacripanta!”, “beócio!”, e outros xingamentos mais ele ouviria, além da tal surra. E também sorte que nessa época a censura já estava arrefecendo (ou seriam os censores muito burros? Fica a dúvida). Que que o Raul fez: chamou lá o parceiro Cláudio Roberto e fez uma música sobre uma menina de treze anos que descobre sua sexualidade enquanto estuda num colégio de freiras, onde a madre a ensina a reconhecer o pecado e lhe diz que o que ela sente é ruim. Putz, falei quase a letra inteira. Falta um pedaço lindo, em que o “satanista” Raul diz: “Deus não é tão mau assim”. Quer dizer, a frase indica que é mau, mas não é tanto. O Raul fez em homenagem a uma de suas esposas, a Tânia Menna Barreto, que lhe contou coisas que aconteceram a ela num colégio de freiras. Nessa idade algumas coisas já começam a acontecer mesmo, ué, muito melhor educar do que reprimir.

Nesse concurso estranho não teve vencedor, o que automaticamente até desqualifica o concurso, que pra ser concurso precisa de vencedor. Acontece que nas regras não escritas ficou definido que o vencedor seria aquele com mais votos entre todos que ouvissem as três músicas. Mas ninguém sabe quem ouviu as três músicas, daí a dificuldade em contar os votos. O que dizem é que o tal colunista do “central qualquer coisa” deliberadamente decidiu quem ganhou, mas resolveu não contar pra ninguém, grande filho da puta que é.

E tudo que não é mentira é verdade aí pra cima.

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