Calabouço e refúgio

*Por Gil Luiz Mendes

Warwrick Gomes é o cara mais bem informado que conheço quando o assunto é futebol. O cara sabe de tudo. Tem notícias sobre o que acontece em vários campeonatos do planeta. Da China até o Piauí. Tudo isso quase em tempo real. E foi numa dessas que, no último domingo, poucos minutos depois das 16h, que o Campinense tinha entrado em campo, junto com a arbitragem, mas o adversário ainda não estava no gramado.

Depois veio a informação que o ônibus do Atlético-PE tinha quebrado na estrada e o time estava a caminho em um ônibus escolar. Teve jogo. E o time atrasado venceu por 4 a 3. As piadas nas redes sociais sobre a bizarrice do fato não pararam até agora. Aqueles que dizem amar o futebol na essência, que se proclamam raiz e não Nutella, bradaram que ali mora o verdadeiro futebol.

Eles estão certo. O que mais descreve o que o atual futebol nacional está ali, na última divisão do Campeonato Brasileiro. Mas não tem nenhuma graça e nem motivos para se fazer piada. A quarta divisão é o calabouço e o refúgio do esporte mais popular do país. É lá que grandes clubes pagam a duras penas a punição por anos e anos de má gestão. É na série D o único espaço que muitos têm para exercer sua profissão de jogador de futebol com o mínimo de dignidade.

Não consegui rir da situação do Atlético-PE e nem achar incrível seu feito. Refleti mais sobre o Campinense, um dos três maiores times da Paraíba, que está com o quarto técnico diferente em 2017, passando por esse tipo de situação. A do Atlético-PE também não é nada boa. O time não venceu nenhuma partida no Campeonato Pernambucano deste ano e soube que jogaria a competição nacional a poucos dias, depois da desistência do Serra Talhada.

É preciso olhar além, muito mais do que apenas no folclore. O Baião de Dois, podcast que apresento aqui na C3, acompanha o futebol nordestino e as divisões mais abastadas. Séries C e D são muito mais que entretenimento e histórias bizarras. Há problemas que expõe todas as mazelas do futebol atual. Um outro exemplo é o Potiguar-RN, que fez uma parceria com um empresário que levou um caminhão de jogadores para o clube. Após a estreia no último domingo, empate contra o Maranhão, a parceria foi desfeita e 13 jogadores foram dispensados.

Essa é mais realidade recorrente na última divisão. Clubes são arrendados por empresários aventureiros, jogadores, que já ganham pouco, de uma hora para outra não têm mais a sua fonte renda, estádios são péssimos e por aí por diante. Então se você é um dos tantos que brada a plenos pulmões “ódio eterno ao futebol moderno”, passe querer entender e enxergar o que se passa no esporte longe das manchetes fanfarronas da grande mídia.

Portuguesa, Campinense, Bangu, Central, Sergipe são clubes tradicionais, que as suas histórias são tão grandes que não cabem na série D.

O feito do Atlético-PE deve ser exaltada pela grande virada que foi e não pela bizarrice de chegar atrasado depois de ter um ônibus quebrado na estrada. Novas manchetes desse tipo ainda aparecerá, e sempre que cruzarmos com uma delas, lembremos a realidade nada fácil que é jogar uma quarta divisão. Deixemos os sorrisos para os gols.

 

*Gil Luiz Mendes é jornalista, escritor e apresenta o Baião de Dois, na Central3.

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Um comentário em “Calabouço e refúgio”

  • David Onezio disse:

    Texto que elucida muito a realidade do futebol brasileiro nas divisões inferiores. E quero deixar outro fato curioso que é o campeão rondoniense de 2016 e semi finalista da copa verde deste ano Rondoniense abrir mão de disputar a Série D por falta de dinheiro.

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