Dividir

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Por Leandro Iamin

Nunca respondi assim, mas deveria, a pergunta sobre qual é o grande barato do podcast. Deveria dizer que é o fato de este modal de comunicação permitir, ao produtor, dizer ao seu público que “vai atrasar”. Que “só amanhã”. E ninguém se sentir ofendido por isso. Depois de tantas décadas de pontualidade doentia nas jornadas televisivas que iluminavam nossa sala enquanto nos tornávamos pessoas que chegam sempre atrasadas aos compromissos, o ponto crucial que acusa a humanidade do podcast, a sanidade como canal de comunicação, está no fato do autor ter o direito, e ser apoiado ao exercer o dito cujo, de simplesmente atrasar, perder o embate para um dia corrido, uma noite improdutiva ou um – claro – compromisso econômico. Não é possível que não possamos, em 2020, falar a real sobre uma produção.

Pouca gente sabe, mas fui ator. Subi, entre 2010 e 2012, em palcos, no quente elenco de um musical de teatro. Uma frase popular de nosso diretor geral, o Deto, nos alertava sobre o motivo mais racional que existia detrás das cortinas: a gente subia ao palco cheio de emoção, adrenalina, mas existiam duzentas pessoas nas cadeiras à nossa frente que saíram de casa para esquecer da conta de gás. Ou de um desaforo do chefe. Ou da dor de dente. O seu barato e prazer e ego é só um recorte, uma parte, não essencial, desimportante ao público, o cliente, o torcedor, aquele que dá sentido ao espetáculo, ao jogo ou ao podcast. Com prazer é sempre melhor, mas a corda começa a ficar tensionada quando é a oportunidade de conexão de quem te ouve ou assiste que acaba arruinada. No caso dos podcasters, já temos a ventura do desquite com a pontualidade absoluta. Não podemos falhar tanto noutras frentes. Comunicador egoísta morre de solidão.

Falar não é fácil, amigos e amigas. Para todos. Se você for um homem, hétero, branco, criado com algum conforto, é um tanto mais difícil, porque geralmente ninguém te conta na adolescência e juventude que suas fraquezas precisam ser enfrentadas e, sobretudo, divididas. Ajudam a te deixar na fantasia do forte, e ninguém quer o papel antipático de apresentar a realidade. Tem que sair da sua boca uma confissão de fragilidade, e do coração a confiança em quem te ouve. A gente aprende tarde. Nessa profissão aqui, de falar ao microfone (e são 8 anos vendo cada pessoa, centenas delas, reagindo de um jeito antes e um jeito depois que ajusto o microfone em sua frente), estamos expostos. Não me esqueço do dia que um aluno, 10 anos, em uma aula realizada em nosso estúdio, disse ao microfone que “toda mulher deve cuidar da casa”. Ele entendeu na hora a gafe, e se sentiu condenado a passar o resto da vida como “o rapaz da frase bosta”. Porque o microfone empresta solenidade e eternidade ao dito. Gravamos uma errata, o menino saiu pedindo desculpas às meninas da sua sala e eu fiquei pensando na força que um microfone tem.

Não precisa ser pontual, mas precisa sair, o podcast. E, sendo o podcaster o tipo mais normal entre os comunicadores normais, não é incomum que haja a conexão entre o que aflige o ouvinte e paralisa o apresentador. Temos as mais banais das dores de barriga, sem o salário do apresentador do Jornal Nacional que nossa vó achava que significava ser jornalista. Jogar aquele podcast pra cima, fazer aquela piada braba, provocar, agitar, engajar, mediar um papo com a energia dos pontas dribladores nem sempre é simples quando um “alô” ao telefone já acusa, a quem te conhece, que o dia não está bom – e os ouvintes habituais também haverão de detectar, no timbre do boa noite, o que não estiver de acordo. Vocês perdoam o atraso. Podem perdoar a tristeza?

Afinal, nós também estamos só tentando pagar a conta de luz e levar uma vida com menos desaforos de chefes. Nos dias ruins, a voz fica grossa e sebosa. Mas o microfone abre e a gente tem uma missão, popularmente conhecida como entretenimento. Nos casos mais íntimos, oba, esta palavra-de-circo é substituída por outra mais legal, que é “divisão”. Aquilo que não ensinaram a gente lá atrás, lembra? Mais difícil fazer isso com um REC piscando, sem o preparo prévio dos anos. Dividir. Um podcast é realmente bom quando quem o faz sabe que deve informar, entreter, mas também dividir sentimentos, não maquiá-los como se fôssemos, sei lá, a Ana Hickmann com aquela pontualidade feliz impossível todos os dias e em todas as mídias. Será um podcast de sucesso quando o ouvinte compreender e bancar mais esta por nós. Compreendam, por favor.

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