Mi Buen Amigo

No último domingo, o Vasco da Gama recebeu o Palmeiras em São Januário pela 15ª rodada do Brasileirão, na partida que registrou o melhor público – 13.755 pagantes, além de 1.100 gratuidades – da temporada no Gigante da Colina. Esta boa assistência dos torcedores pode ser explicada pelos seguintes motivos: baixo custo dos ingressos, ausência de confrontos entre alviverdes e cruz-maltinos desde 2012, boa fase do Verdão e, principalmente, a amizade entre as torcidas.

A aliança entre palmeirenses e vascaínos começou na década de 1980 através da figura do sergipano Cleo Sóstenes Dantas da Silva, homem forte da Mancha Verde, cuja paixão na infância era o Vasco da Gama, mas ao se mudar para São Paulo adotou o Palmeiras como sua bandeira.

Hoje, esta amizade é uma das mais fortes entre torcidas brasileiras, inclusive superando a barreira dos torcedores organizados, sendo vista com bons olhos pelos torcedores “comuns”. Muitos palmeirenses acompanharam a goleada por 4 a 1 no meio dos vascaínos, pois os ingressos de visitante foram os primeiros a se esgotarem.

Segue abaixo uma lista de outras 5 amizades consolidadas entre hinchadas do futebol sul-americano:

5- Millonarios (Colômbia) + River Plate (Argentina)

Millonarios

Surgido em 18 de junho de 1946, como uma continuidade do Club Deportivo Municipal, de Bogotá, o C.D. Millonarios adotou o apelido do seu predecessor, por conta da importação a “peso de ouro” de craques argentinos na década anterior, inclusive o treinador Fernando Paternoster, vice-campeão pela Albiceleste no Mundial de 1930.

A política ambiciosa de contratações foi retomada em 1948 pela greve dos Futbolistas Argentinos Agremiados, mesmo ano da fundação da División Mayor del Fútbol Colombiano. Na temporada seguinte, o Millonarios contratou Adolfo Pedernera e Alfredo Di Stéfano duas importantes engrenagens de La Máquina Riverplatense, equipe que marcou época nos anos 1940 – na ocasião, El Maestro já vestia a camisa do Huracán, após passagem tímida também pelo Atlanta.

Di Stéfano

A dupla marcou mais de 100 gols em conjunto e foi decisiva para a conquista dos três primeiros títulos colombianos do Ballet Azul – quando La Saeta Rubia trocou o clube pelo Real Madrid, em 1953, Pedernera continuou em Bogotá e sagrou-se tetracampeão no mesmo ano.

Desde então os hinchas dos clubes mais vezes campeões nacionais da Argentina e Colômbia mantêm uma afinidade que supera os quilômetros de distância entre o El Campín e o Monumental de Nuñéz.

4- Chacarita Juniors (Argentina) + Rosario Central (Argentina)

Gigante de Arroyito

Mesmo no exílio em Madrid, o coronel Juan Domingo Perón contava com o prestígio de algumas das hinchadas mais populares da Argentina. As barra bravas de Chacarita Juniors, Racing Club, Rosario Central e San Lorenzo eram irmanadas no peronismo e ansiavam pela volta do seu líder ao poder.

Com o passar dos anos a amizade de canallas funebreros foi se desgastando com seus pares da Academia e do Cuervo até romperem de vez. Atualmente, é considerada a mais longeva união entre torcidas no âmbito local e sempre que se encontram, seja em Rosario ou San Martín, são ouvidos os cânticos:

Vea, vea, vea / Que cosa más bonita / Las dos hinchadas juntas / De Central y Chacarita

Perón, Evita / Central y Chacarita

3- Grêmio (Brasil) + Nacional (Uruguai)

Olímpico

Por conta da proximidade entre o estado do Rio Grande do Sul e a República Oriental del Uruguay, sempre existiu um intercâmbio muito forte entre os habitantes desta região. E o futebol é símbolo desta reciprocidade, estreitando os laços entre dois clubes de Montevideo e Porto Alegre.

Quando o Grêmio inaugurou o estádio Olímpico, em 1954, convidou a equipe do Club Nacional de Football para a primeira partida na nova cancha. Já na década de 1970, os porto-alegrenses contrataram o zagueiro Atilio Ancheta junto ao Bolso, que havia conquistado sua primeira Copa Libertadores.

Nos anos 80, outro caudilho bolsilludo foi adquirido pelo Grêmio após sagrar-se campeão continental, desta vez sobre o arquirrival Internacional. Hugo de Léon – nascido em Rivera, na fronteira com o Brasil – foi o capitão que levantou pela primeira vez La Copa vestindo a camisa gremista, desta vez diante do Peñarol, selando com sangue a identificação entre os tricolores.

Bombo

Recentemente, as torcidas voltaram a se reunir quando o Nacional enfrentou o Inter por dois anos seguidos (2006 e 2007) e nas visitas do Grêmio à capital uruguaia (Defensor 2007 e Liverpool 2011), além de disputarem a Taça Hugo de León no recesso da Copa do Mundo de 2010 e dividirem o grupo 6 na penúltima Libertadores (duas vitórias gremistas por 1 a 0).

2- Estudiantes de Buenos Aires (Argentina) + Montevideo Wanderers (Uruguai)

Amistoso

Em 1903, um ano após a fundação do Montevideo Wanderers FC – uma dissidência do histórico Albion Football Club – o quadro bohemio atravessou o rio da Prata e foi excursionar em Buenos Aires. Nesta oportunidade, disputaram um amistoso diante do Estudiantes local e a comitiva uruguaia ficou tão impressionada com a hospitalidade dos pincharratas que decidiram adotar as cores e o uniforme do clube anfitrião.

Esta amizade atravessou mais de um século e é seguramente a mais antiga do futebol sul-americano, sendo comum a visita de wanderistas ao Estadio Ciudad de Caseros, no bairro homônimo, e de pinchas ao Parque Alfredo Viera, no Prado, quando o Estudiantes e o Wanderers enfrentam os rivais Almagro e Defensor, respectivamente.

La Misma Pasión

Na atual edição da Libertadores, hinchas do Estudiantes também estiveram presentes na Bombonera e no Cilindro quando o Wanderers foi derrotado por Boca Juniors e Racing Club.

1- Alianza Lima (Peru) + Colo Colo (Chile)

Un Solo Corazón

No Torneo Descentralizado de 1987, a equipe da Alianza Lima liderava com folga a tabela até a 18ª fecha, quando visitou o Deportivo Pucallpa, em 9 de dezembro, no planalto amazônico. Ao derrotar El Rojo Triplayero por 1 a 0, o plantel íntimo retornaria à capital a bordo do Fokker F-27 da marinha peruana. Porém, os 16 jogadores, 5 membros da comissão técnica, 4 dirigentes, 8 torcedores, o trio de arbitragem e mais 7 tripulantes nunca mais voltariam às suas casas, pois a aeronave colidiu com o Oceano Pacífico, sobrevivendo apenas o piloto. Ano passado, foi lançado um thriller policial baseado nesta tragédia que abalou o universo futebolístico.

O campeonato foi suspendido até janeiro de 1988 e a Alianza Lima só conseguiu retomar a disputa graças à ajuda do Colo Colo, através da figura do seu presidente Peter Dragicevic, muito amigo do mandatário aliancista Agustín Merino Tapia. O Cacique emprestou quatro jogadores aos grones: o goleiro José Letelier, o defensor Parco Quiroz, o meia Francisco Huerta e o atacante René Pinto, que foram apresentados no Matute em uma partida beneficente diante do próprio Colo Colo. Com a ajuda dos albos e a ascensão de jovens talentos o clube de Victoria conquistou o torneio, mas perdeu a final anual diante do Universitario.

A rivalidade histórica entre Chile e Peru jamais abalou a amizade entre aliancistas e colo colinos. A maior prova disso foi o comunicado emitido pelo Comando Svr – barra brava da Alianza Lima – previamente à decisão em Haia, sobre o controle marítimo na fronteira entre os dois países:

“Hoy que se va a leer el dictamen del Tribunal Internacional de La Haya, y ante las muestras de exaltado patrioterismo y nacionalismos absurdos, dejamos en claro que el Comando Svr rechaza dichas manifestaciones porque en todos estos años hemos ido conociendo el alma del pueblo chileno a través de la hinchada alba. Y encontramos que no hay diferencias porque al ser del pueblo tenemos los mismos sueños, anhelos, y hemos pasado por los mismos sufrimientos”

Trapo

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