SDT Na Bancada #21 Memória & Justiça

No final do mês passado, os clubes argentinos repudiaram em uníssono o aniversário do último golpe militar no país vizinho. Por aqui, silêncio na semana seguinte. Ou pior: o Flamengo, por exemplo, desautorizou uma homenagem de um coletivo de sócios a Stuart Angel, ex-atleta rubro-negro que foi preso, torturado e morto.

Afinal, por que vemos posições tão covardes em relação à Ditadura Militar e o desprezo aos direitos humanos no futebol brasileiro? Lembrando que o CRF também permitiu que o deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL-RJ) – aquele mesmo que destruiu uma placa em homenagem à Marielle Franco, outra flamenguista executada – participasse da comemoração da Taça Rio.

Nesta edição, tivemos as participações da jornalista Hildegard Angel – irmã de Stuart e filha de Zuzu, também assassinada pelos militares; do historiador Lucas Pedretti, ex-membro da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro; e da professora Lívia Magalhães (UFF), que trouxe outra mirada sobre o Mundial de 1978, além de recuperarmos um trecho da entrevista das Madres da Plaza de Mayo a jornalistas holandeses, às vésperas da Final daquele ano.

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Xadrez Verbal #161 Jamal Khashoggi

Matias Pinto e Filipe Figueiredo recebem novamente nos estúdios Tupá Guerra, a demonóloga de voz inconfundível. Fomos até a Turquia, onde o possível sequestro e assassinato de um jornalista saudita, opositor do governo do seu país, pode finalmente estremecer as relações entre a família Saud e os EUA. Afinal, que tipo de Estado é a Arábia Saudita?

De lá seguimos para o Extremo Oriente, para ver de perto a troca de farpas entre China e os EUA, com direito à capturar de espião e aprisionamento do diretor da Interpol. Tudo isso enquanto Kim Jong-un acertou mais um encontro com Trump e convidou o papa Francisco a visitar o país. Terminamos aqui na América Latina, com a morte de opositor na Venezuela, prisão de Keiko Fujimori no Peru e, claro, a repercussão internacional da eleição brasileira.

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Xadrez Verbal #156 Museu Nacional

Nesta semana desgraçenta, Matias Pinto e Filipe Figueiredo chegam mais cedo, por conta do feriadão, e giram pela vizinhança, atualizando você sobre a crise continental de imigrantes e refugiados. Também repercutimos a crise argentina, a mudança de embaixada paraguaia em Israel, dentre outras pautas latino-americanas.

Passamos pelos EUA, onde o clima de paranoia chegou com força. Um oped anônimo no New York Times e um vindouro livro de bastidores complicam a política na Casa Branca. E, claro, infelizmente, repercutimos o incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e tentamos não xingar todo mundo.

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Fronteiras Invisíveis do Futebol #56 – 13 de Maio

Repassamos as origens, particularidades e desdobramentos da escravidão negra no território que hoje é o Brasil. Para tal, Matias Pinto e Filipe Figueiredo receberam Luciano Jorge de Jesus, professor de educação física da rede estadual de Minas Gerais, e Davi “Agathocles” Correia, professor de sociologia da rede estadual de São Paulo.

Também tratamos do racismo no esporte e como o futebol colaborou para combater, ou para manter, o pensamento racista. Fechamos com a lenta inserção política do negro no Brasil republicano, a atual demografia brasileira e tentamos desmistifcar algumas comparações que são feitas atualmente.

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Conexão Sudaca #162 Semana Copeira X

Nosso apresentador Matias Pinto estava solito no Estúdio Manuel “Garrincha” dos Santos, mas estabeleceu contato com o amigo Flaco Amarelo, direto de Porto Alegre, que esteve na na capital paulista na última quarta-feira (11/04) para acompanhar o seu Boca Juniors na visita diante do Palmeiras.

Também lembramos do último jogo oficial entre alviverdes e xeneizes, válido pela semifinal da Copa Libertadores de 2001, e avaliamos os demais confrontos entre argentinos e brasileiros na atual edição da Copa Sul-Americana.

No mais, celebramos os 20 anos de carreira da banda cordobesa Los Caligaris, que lançou o DVD El Show Más Feliz del Mundo durante esta semana!

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Notícias falsas e pouco debate

Era o ano de 2005 quando embarcamos para um encontro nacional de estudantes de história na Universidade Federal de Sergipe. Chegamos por lá no sábado e o congresso duraria até o outro fim de semana. Já no domingo correu o campus de Aracaju a notícia sobre a morte de um ator famoso. Teria passado no Faustão.

“Tony Ramos morreu!”

Na época não existia smartphone ou qualquer tipo de acesso remoto à internet e a rede social do momento era o Orkut. Naquele isolamento quente do congresso ninguém estava muito preocupado em procurar detalhes sobre a morte de Tony Ramos. As preocupações eram mais etílicas, afetivas e acadêmicas.

Uma semana se passou e quando cheguei em casa comentei com meu pai sobre aquele fato lamentável. “Tony Ramos morreu tão novo, né?” Meu pai me olhou com estranhamento e disse que ele não tinha morrido coisa nenhuma. “Como não?”, perguntei com surpresa. Fui checar a notícia e vi que ele estava vivinho da silva. Em carne, osso e pelos. Era um boato que se espalhou no congresso. Sem ferramentas nem interesse de checar, a informação falsa teve sua semana de verdade.

Comento essa lembrança quase esquecendo que a ideia aqui é falar sobre as iniciativas de mudanças na legislação para combater as chamadas fake news durante o próximo período eleitoral. O tema está sendo tratado pela Polícia Federal, Judiciário, Legislativo, Executivo e pelo núcleo de combate aos crimes cibernéticos da Polícia Civil.

O Brasil será o primeiro país do mundo a criar uma legislação específica para combater fake news. E nada disso será fácil. O volume imenso de matérias que circula no Brasil, que ganhará ainda mais intensidade durante os 45 dias do período eleitoral. Além da dificuldade de estabelecer as fronteiras entre o que é uma noticia fraudulenta e o que uma notícia mal apurada, ou entre o que é um conteúdo crítico e o que é um conteúdo criminoso.

Conheço, por alto, umas quatro iniciativas que fazem apuração profissional de fatos hoje em dia no Brasil. A Agência Pública, o site boatos.org, a agência Lupa e Aos Fatos. Ainda que todas elas trabalhem incessantemente, o volume de apuração nem arranha a quantidade de publicações diárias sobre política no país, que ultrapassa as três mil publicações.

Quais órgãos ficarão responsáveis por esse monitoramento / julgamento? Quais os critérios? Quanto isso tudo vai custar?

O ministro Luiz Fux, que assume a presidência do TSE agora em fevereiro (e já deixou claro que pretende tratar com rigidez o combate às notícias falsas), pediu ao diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segovia, que uma força-tarefa seja criada para exercer essa função. A criação dessa força-tarefa deverá ser feita em paralelo à elaboração de uma nova legislação para o tema, a ser enviada ao Congresso para entrar vigor já nas eleições de outubro.

Tudo muito rápido, o que é ainda mais preocupante. Além das dificuldades para a criação de medidas de combate à circulação dessas notícias falsas, outras questões se colocam e devem ser destacadas.

Existe um debate a ser feito para caracterizar o que é uma fake news. Ele não pode acontecer de forma apressada e meramente punitivista, como parece estar sendo feito agora. Será necessário diferenciar o que é uma notícia fraudulenta do que é uma notícia mal apurada, por exemplo. E isso não é fácil, principalmente se pensarmos nessa escala de 20 mil publicações semanais sobre política no Brasil.

Temos que estabelecer, ainda, critérios minimamente objetivos para dar conta de outras variantes de conteúdos que fogem ao meramente factual. O conteúdo político tem múltiplas modalidades e gêneros, desde conteúdos noticiosos, até mesmo textos opinativos e ensaísticos, imagens e vídeos humorísticos, crônicas e até mesmo as fofocas.

Sabemos que a dimensão anárquica da rede deixa muitos congressistas insanos querendo matar jornalistas. Aliás, abro um parêntese com uma informação que está longe de ser fake news: segundo o estudo “Tendências mundiais em liberdade de expressão e desenvolvimento de mídia”, da Unesco, o Brasil é o 7º país mais perigoso do mundo para se exercer a atividade jornalística.

Pois é. É nesse país que estamos assistindo a criação, sem grandes debates, de mecanismos de punição de circulação de conteúdos na rede. Recentemente, um projeto de um deputado baiano do DEM tentava criminalizar pessoas que falam mal de políticos na internet. Algo absurdo que só faz sentido quando temos noção do nível de descolamento da realidade em que vive boa parte da nossa classe política.

Esses conteúdos que desagradam os figurões da república são importantes no campo da análise política e eles precisam ser muitos bem resguardados. Não podemos correr o risco de regredir com os princípios constitucionais de liberdade de expressão, e muito menos cair em “câmaras do ministério da verdade” dessa tal força-tarefa da polícia que tem sido organizada sem nenhum debate público.

Diante de tantas dificuldades para estabelecer critérios objetivos sobre o que são as fake news, bem como o desafio de criar mecanismos eficazes para dar conta de um volume imenso de conteúdo, talvez a melhor coisa a ser feita seja fazer exatamente nada. E não fazer exatamente nada é lidar com esse tipo de conteúdo com base nas legislações que já temos disponíveis para tratar de questões de crimes contra a honra como calúnia, difamação e injúria.

Qual a fronteira entre uma notícia falsa e uma notícia mal apurada? Pior, qual a diferença entre o que uma notícia falsa e uma notícia fraudulenta? O que separa um texto crítico de um conteúdo criminoso? Ou um artigo especulativo de um artigo difamatório?

Achar essas fronteiras é uma tarefa quase impossível em larga escala num período de intensidade eleitoral. Quase tão difícil quanto checar se Tony Ramos tinha morrido ou não no meio de um congresso em uma época em que a internet ainda estava em sua Antiguidade.

 

*André Raboni é historiador, analista de comunicação e mídias digitais. Especialista em política e comunicação.

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O Rugby do Brasil em 2017

*Por Virgílio Neto

Os seis primeiros meses de 2017 foram sem sombra de dúvidas os mais intensos para a história do Rugby do Brasil. Nos clubes, toda a movimentação nas categorias de base e nas equipes principais, dentro dos torneios estaduais e regionais, masculino e feminino. Nas seleções nacionais, Yaras e Tupis a rodarem o mundo para colocarem o Brasil no topo e, em casa, a darem muita alegria para a torcida.

Os circuitos estaduais femininos de rugby sevens estão com tudo! No masculino, um Jacareí jovem e ousado é resultado de um excelente trabalho com as camadas inferiores. No XV, São Paulo viu um novo campeão, a Poli. No Rio de Janeiro, o tradicional Guanabara vencedor uma vez mais. Em Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul, hegemonia intocável de Belo Horizonte, Curitiba e Farrapos, respectivamente. Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste com equipes e competições mais organizadas, nomeadamente Makuxi (Boa Vista/RR) e Melina (Mato Grosso). Por todo o País, torneios infantis e juvenis cada vez mais disputados, numerosos e concorridos. Ademais, inúmeras iniciativas de rugby escolar e de participação (como em Barroso/MG) fazem a nossa modalidade crescer mais a cada dia, com bastante qualidade.

Entretanto nem tudo são flores. Vários problemas ainda existem, como a escassez de recursos financeiros e espaços para jogos e treinos, como nas grandes cidades. No entanto, os recursos humanos são surpreendentes. Percebe-se mais ação do que discurso, com os envolvidos com o rugby no Brasil trabalharem de maneira incansável para fazer a modalidade crescer e se desenvolver. Exemplo disso é o São Bento, da capital Paulista. Mas certamente há muito mais Brasil adentro.

“O Rugby Brasileiro assombra o mundo”. Vocês se lembram desta frase, dita em comercial de TV há uns anos, com o apresentador sentado em uma poltrona no meio do campo? Não é mais exagero dizer isso. As equipes nacionais têm nos enchido de orgulho! Nos gramados do mundo, as Yaras venceram Inglaterra e Rússia, por exemplo. Fizeram frente às fijianas e deram muita dor de cabeça para as melhores seleções. Já os Tupis neste ano venceram, diante da nossa torcida, nada mais, nada menos que Chile, Canadá e Portugal. Há menos de dois anos tiraram o Brasil da 45a. colocação e o puseram na 29a do ranking mundial. Daniel Danielewicz, o Nativo, que se aposentou da amarelinha depois da – maior de sempre – vitória sobre o Paraguai, por 57 a 6, deixará saudades. No entanto, sobe uma geração faminta pela glória e que irá conduzir o rugby nacional ainda mais para o topo.

E este caminho é longo, intenso, com altos e baixos. Nada que o rugby Brasileiro não saiba, porque tem percebido – mais do que nunca – que tudo isso é fruto de muito valor, de muito empenho, dedicação e trabalho. Por isso ainda há muito para se ver, aprender, fazer, ensinar e transmitir. Vamos a isso.

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House Of Cards e a Casa do Baralho

*Por Luiz Thunderbird

Olá, amiguinhos! Eu estava aguardando a melhor oportunidade de escrever sobre essa série que conquistou meu monitor de TV e o mundo. Não vejo momento mais propício que este que estamos vivendo no Brasil. Além do que, a série estreia nova temporada neste fim de mês.

A saga de Frank Underwood começa quando ele ainda está no senado americano, junto aos democratas, como grande articulador político do partido. O presidente havia lhe prometido um cargo importante se eleito. A promessa foi colocada de lado e isso desperta a fúria de Underwood. Já vimos isso em território nacional.

Ele não tem escrúpulos (vemos muito disso aqui no nosso congresso) e pretende se vingar do presidente eleito (outra similaridade com nosso cenário político). Ardilosamente, o anti-herói inicia suas manobras para a tomada de poder (aqui, chamamos de golpe). Primeiramente (fora Temer?), ele constrói uma armadilha pro escolhido pelo presidente para o cargo de secretário de estado, que Frank tanto desejava. Armadilha! Muito bem sucedido na derrubada do rival, ele almeja muito mais. Ele visa alcançar a vice-presidência.

Com golpes sujos, arapucas, manobras deselegantes, ameaças e até assassinatos, ele assume a vice-presidência dos EUA. Uma cargo importantíssimo, não é mesmo? Mas ele quer mais! Sua sede de poder é insaciável. Ele articula um golpe espetacular para que o presidente seja obrigado a renunciar.

Algumas frases de Frank Underwood…

Cabe aqui uma explicação. Nos EUA e em vários países europeus, uma suspeita de desonestidade é suficiente para que o mandatário maior da nação renuncie. Se há provas de desvios de conduta, a renúncia é quase uma certeza de que esse afastamento voluntário é iminente (não é o que vimos recentemente no Planalto). Lembro de estar num supermercado em 1992, em Los Angeles, e ser abordado por uma senhora muito americana. Eu estava gravando “Thunder Descobre a América” pela MTV, ela reconheceu meu português e me indagou: “Você não tem vergonha do seu presidente?” O tal presidente era Fernando Collor de Mello. Eu respondi que tinha muita vergonha dele e ela perguntou por quê o povo brasileiro não exigia sua renúncia. Pouco tempo depois ele se foi. Mas voltou, né? Tá aí, senadorzão da república. Que vergonha! E tem a nova sensação do Senado, Aécio Neves envolvido com os recentes escândalos nacionais. Ele estaria na minha versão de House Of Cards Brazil!

Voltando à série, depois do golpe Frank Underwood assume o cargo de homem mais poderoso do planeta. Ele finalmente atinge seu objetivo de se tornar presidente da república. Sua esposa, Claire, é peça fundamental na arquitetura do plano. Ela é parceira inconteste do marido, tomando pra si algumas ações bastante condenáveis. Mas sabe como é o poder, né amigos? Aquele vale-tudo que, se bem jogado, rende pontos preciosos no tabuleiro.

Acontece que a própria Claire Underwood desperta para o cenário político, não como esposa, mas candidata aos cargos públicos. A América se apaixona por sua figura altiva e a coloca no elenco como candidata à vice-presidência junto ao marido (pouco provável que aconteça com Marcela, aqui no Brasil). Ela estabelece uma relação com o presidente da Rússia, com requintes de sedução, inclusive. Mas com tanta força e intenções, às vezes nobres, que domina as disputas com o Victor Petrov. Victor vai tão longe na provocação, que tasca um beijão na primeira dama numa festa da Casa Branca!

Aliás, cabe a observação que Michel Temer viajou pra Portugal para o funeral de Mario Soares (ex-presidente daquela nação) com Gilmar Mendes, presidente do STF. Foi a única viagem dele e, em terras portuguesas, teve que ouvir retumbantes FORA TEMER, inclusive com o sotaque luso. Que coisa!

Recentemente, a conta oficial do Twitter da série House Of Cards publicou: “Tá difícil competir”. Fazia referência à denúncia sobre o envolvimento de Michel Temer com Joesley Batista da JBS, hoje, empresa conhecida por todos os brasileiros. Lembram da Friboi? Pois é, a carne é mesmo muito fraca! Se a carne é fraca, a ganância é fortíssima.

House of Cards Brazil ou Casa do Baralho?

Robin Wright, a atriz que interpreta a personagem de Claire Underwood, vem ao Brasil pra falar do Empoderamento Feminino com Meryl Streep. Acho isso sensacional, depois da declaração de Michel Temer, nosso presidente, ter sido objeto de piada mundial, após suas declarações machistas absurdas no Dia da Mulher. Quem é o marqueteiro de Temer? Não é possível que alguém tenha dado essa ideia pra ele como instrumento de marketing. Foi um fiasco tão grande, que tive que ouvir de uns músicos belgas que estiveram no Thunder Radio Show, que essa foi a única relevância de Temer na Bélgica, Que vergonha! De novo!

Tem um documentário na Netflix sobre o chefe de campanha de Donald Trump. “Get me Roger Stone”. Recomendo assisti-lo depois da ingestão de um eficiente antiemético. As ânsias de vômito vêm à boca, durante esse documentário, mas explicam a eficiência das táticas sujas de Roger Stone. Ele estava envolvido no escândalo de Watergate com Richard Nixon, na campanha de Ronald Reagan, na eleição de George Bush pai e filho, uma sequência de republicanos horripilantes. Robin Wright declarou no twitter que Stone roubou um monte de ideias da série House Of Cards, uma brincadeira, obviamente. Mas a máxima de Roger Stone é que mais poderosa que a informação, é a DESINFORMAÇÃO. Portanto, os marqueteiros brasileiros, esses sim, podem ter surrupiado as ideias do Sr. Stone. Vimos isso nas recentes eleições municipais. Um dia, falo mais sobre isso.

Aqui o trailer desse documentário sinistro:

Enquanto escrevo esse texto, tudo pode estar acontecendo no desenrolar da história do Brasil. A cada dia vemos acusações, defesas absurdas, novos envolvidos, novas gravações campeãs de audiência nos jornais nacionais. Muita expectativa em relação ao futuro do país! Dia 30 de maio estreia a nova temporada de House of Cards. Estou muito ansioso por isso. A ficção é mais encantadora que a nossa tosca realidade. Qual será o destino de Frank? Claire vai ascender à presidência? As desonestidades do presidente virão à tona? Ele irá renunciar? Vai pra cadeia? E no Brasil? Expectativas!

Aqui o trailer da nova temporada:

 

*Luiz Thunderbird é músico, apresentador de TV e comanda o Thunder Rádio Show, na Central3.

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Onde a terra acaba (2002)

*Por Murilo Costa

Como parte da programação do Festival É Tudo Verdade, o Itaú Cultural terá cinco documentários disponíveis gratuitamente por streaming em seu site. Os filmes tratam de artistas brasileiros de diversas áreas, e ficarão em cartaz no site até o final do Festival, no dia 30 de abril. Hoje, 17, a partir das 21h, será a vez de “Onde a terra acaba”, do diretor Sérgio Machado, que aborda a trajetória de Mario Peixoto. O cineasta, responsável pelo clássico “Limite” – presença garantida em praticamente qualquer lista de melhores filmes realizados no Brasil – conheceu a glória já em seu primeiro trabalho, mas nunca mais conseguiu terminar um projeto.

O cinema nacional praticamente inexistia quando Mario Peixoto é enviado para uma temporada de estudos na Europa, em 1928. Isolado em um país distante e castigado pelo frio e chuva incessantes, o jovem se apega à sétima arte como uma forma de fuga. E é em solo inglês que ele assiste pela primeira vez “Metrópolis”, de Fritz Lang. A experiência, em uma sessão lotada o marca da mesma forma que o filme, como registra em seu diário.

Quando retorna ao Brasil e aos amigos, eles se apressam em mostrar a última novidade do país: Humberto Mauro, o maior e mais ambicioso cineasta brasileiro do período, acabara de lançar “Brasa Dormida”. O longa é a mais bem feita tentativa até o momento de se aproximar do domínio técnico e narrativo do cinema europeu.

O rigor excessivo da linguagem e dos enquadramentos estava distante da euforia e criatividade de Fritz Lang. Entretanto, apontava que era possível fazer cinema no Brasil. Com a centelha na cabeça, numa conversa informal com os amigos, sem reais pretensões, Mario Peixoto comenta que gostaria de fazer um filme – e até tem um roteiro rascunhado em seus dias depressivos na Inglaterra. É o que basta para que logo estejam todos empolgados e unidos em torno da ideia.

Os amigos logo se escalam como atores, buscam locações e apontam um possível diretor que, após ler o argumento, diz o óbvio: o próprio Mario Peixoto seria a pessoa mais indicada para conduzir a filmagem de um roteiro tão peculiar.

Empenhado, o grupo consegue até mesmo um encontro com Humberto Mauro, que os encoraja e indica seu parceiro Edgar Brazil para o projeto. O fotógrafo é um dos principais responsáveis pelo sucesso do filme, fazendo todos esforços possíveis pra criar os planos pedidos pelo diretor. Com equipamento profissional escasso no país na época, ele apela para a criatividade e inventa aparatos para substituir os travellings, a grua e até para imitar uma steadycam – que só iria surgir para o mundo muito tempo depois. As imagens de making of, uma raridade resgatada pelo documentário, mostram o seu trabalho incansável em estruturas improvisadas.

A estética de Limite é tão única e adiantada para a época quanto a sua linguagem e tema. Embora muito do crédito certamente seja de Edgar Brazil como operador, é possível supor que quase tudo realmente saiu da mente de Mario Peixoto. Nos filmes seguintes do fotógrafo não há nada tão ousado ou impactante. Sem encontrar compreensão em seu meio, o filme acabou não sendo exibido comercialmente.

Embora toda a historia por trás da execução de Limite seja ótima, o grande trunfo do documentário vem a seguir, quando aborda o filme que lhe empresta o nome: Onde a Terra Acaba.

O longa seria uma nova colaboração de Mario Peixoto e Edgar Brazil, agora com mais recursos. Por trás da empreitada estava Carmen Santos, uma das primeiras e provavelmente a maior estrela do cinema brasileiro da época. Encantada com o que vira em Limite, ela encomendara para o jovem cineasta um filme em que pudesse ter uma personagem forte e interessante. Toda a imprensa da época se interessa no projeto, que já é amplamente divulgado antes mesmo das filmagens começarem.

Do primeiro filme, uma empreitada pessoal e feita a seu jeito, com total liberdade, Mario logo passou a um projeto gigante, precisando lidar com assédio, pressão e o ego de uma grande estrela. Mesmo tendo sido a principal incentivadora do projeto desde o início, Carmen Santos também foi a maior inimiga durante sua realização. Seus problemas pessoais faziam com que precisasse frequentemente abandonar as gravações para viajar ao Rio de Janeiro. E, mesmo quando estava no set, acabava se envolvendo em discussões com Mario – que também chegou a largar tudo por duas vezes, para depois retornar, engolindo o orgulho. Mas a continuidade das brigas tornou a situação insustentável, resultando no abandono do filme.

Com seus vinte e poucos anos, Mario Peixoto tivera seu grande feito ignorado pelo grande público, enquanto seu fracasso fora amplamente noticiado desde o início até o melancólico final. Desenganado com o cinema, exilou-se em uma casa na Ilha do Morcego e lá permaneceu por muito tempo, rodeado apenas por suas plantas e caseiros.

Nos anos seguintes apareceu muito pouco, fugindo da imprensa quando procurado. Mas, já mais próximo do final da vida, percebe-se uma urgência, uma necessidade de se expressar, de tentar de novo. Um amigo tenta emplacar um filme seu pela Embrafilme – mas diz que o próprio Mario acabava sabotando o projeto. Medo do fracasso? É fascinante pensar no que se passava em sua cabeça. Tudo que podia ter sido e não foi. Todas as ideias guardadas, o sentimento de rejeição, a ideia de fracasso.

Em um rápido e incrível trecho, vemos Mario na tela. Ele cede, revela seus pensamentos: descreve uma delirante cena cheia de detalhes, complexa. Sua realização exigiria ousadias técnicas inimagináveis para o cinema brasileiro da época. Será que ele inventaria formas de tornar isso filmável? Ele novamente desafiaria as definições de possível, venceria as limitações e faria uma nova obra-prima? Nunca tivemos a chance de saber.

Se Mario Peixotou não nos deixou em vida mais uma obra-prima, seu material bruto rendeu uma pequena pérola. “Onde a Terra Acaba” é fotografado e montado com uma sensibilidade rara. Não fugindo ao estilo de “Limite”, pega emprestado o lirismo e dramaticidade de suas trilhas e paisagens, e toma a liberdade de adicionar som. Trechos dos diários de Mario Peixoto e observações gerais permeiam o filme, numa ótima narração em off gravada por Matheus Nachtergaele. O material de arquivo é riquíssimo, e os pouco mais de 70 minutos passam rapidamente, mesmo trazendo tantas historias, emoções, aflições e questionamentos.

A CRIATURA QUE SE VOLTA CONTRA SEU CRIADOR

O tema do cineasta engolido por seu próprio filme já rendeu alguns grandes documentários e ficções. É um drama que habita o imaginário de todos profissionais da classe; talvez porque quase todos eles já estiveram bem próximos de situações-limite como essa. Um set de filmagem pode parecer um mundo de magia e fantasia para quem assiste aos making-ofs de divulgação, mas na vida real é mais próximo da definição criada por Samuel Fuller: um campo de batalha.

Há muitos perigos e bombas escondidas nesse campo minado. A batalha pode ser contra egos gigantes – desde o elenco a membros da equipe, ou até do próprio diretor – como vemos em filmes como “A Noite Americana”, de François Truffaut. Em “Oito e meio”, a pressão vem por conta da própria reputação do diretor, que o precede e gera altas expectativas. O bloqueio criativo é outro velho vilão – esse também conhecido pelos escritores – como mostrado em “Adaptação”. A figura mais impessoal e antagônica do Produtor também é um clássico, como em “Assim estava escrito”, de Vincent Minelli.

Se a ficção oferece tantos bons exemplos e grandes filmes sobre o assunto, é o documentário quem nos traz as historias reais – e, por isso mesmo – incrivelmente superiores, ricas e complexas.

Em “O apocalipse de um cineasta” vemos Francis Ford Coppola desafiar a natureza ao tentar recriar o Vietnã nas Filipinas. A luta que se segue é épica, quase levando-o a insanidade. Quando as forças invisíveis dão uma trégua, é Coppola quem se torna o maior inimigo de seu próprio filme, perdendo-se em exageros, invenções, improvisos e horas, horas e mais horas de material gravado. Entretanto, ao final, o diretor vence, mesmo que com baixas: embora picotado pelos produtores, Apocalypse Now é um sucesso.

Já no angustiante “O inferno de Henri-Georges Clouzot”, o título do filme que o cineasta rodava não poderia ser mais condizente com as gravações. Obsessivo e metódico, o francês roda infinitos testes e possibilidades para cada cena. “O inferno é a repetição”, dizem. E Clouzot se enfia em seu próprio inferno pessoal, repetindo cenas e takes sem sair do lugar, gastando todos os recursos a sua disposição, parecendo enlouquecer tanto quanto o seu protagonista. Acossado pelo fracasso iminente e sem saída diante de sua ambiciosidade sem limites, Clozout teve consequências sérias: o desgaste físico e mental o levou a ter um ataque cardíaco. O filme foi cancelado.

*Murilo Costa é cinéfilo, cineasta e integrante da bancada do Central Cine Brasil.

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A Volta da Empatia

Há coisas que quando se vão, por mais que se tente, não podem mais voltar. Não falo da inexorabilidade da vida, mas dos sentimentos. Há quem ame e compartilhe tudo com a pessoa amada, por anos, décadas, e num dia qualquer acorda e se dá conta de que não sente mais nada. Aquele laço já não gera nenhum calor no peito e, por mais aterradora que soe essa nova verdade, não há reversão.

Pois bem. Era a este eterno desencanto que parecia condenada nossa relação com a seleção brasileira. Estávamos convictos de que aquela camisa amarela nunca mais nos contagiaria e poderia voltar a suprir nosso sagrado direito ao prazer. Antes, pelo contrário, passaríamos as próximas eras a projetar num campo do futebol os grandes fracassos da sociedade por nós habitada – e convenhamos que até outro dia tal exercício andava fácil.

Eis, que de repente, não mais que de repente, um treinador que deve ter um cajado de Moisés invisível a seu lado aparece e imediatamente nos faz voltar a desfrutar do que 11 rapazes de amarelo fazem em campo.

Mais que a série implacável de cinco vitórias e 15 pontos que alçou o Brasil à liderança das Eliminatórias e exterminou qualquer temor de cavar mais fundo o poço do 7 a 1, é impressionante como Tite já conseguiu, apesar de todas as mazelas que continuam a cercar o futebol brasileiro, resgatar o contentamento com o escrete – até o termo escrete é capaz de ser reabilitado por esse obcecado pastor gaúcho.

Num certo rompante, arrisco dizer que sua estreia contra o Equador foi o melhor jogo da seleção brasileira desde aquele 4-1 contra a Argentina na final da Copa das Confederações de 2005, em Frankfurt.

Não precisamos de 20 minutos para notar vida nova. Neymar não hesitava em emular um Jorge Henrique qualquer e voltar para marcar até as barbas de Marcelo. No mais, a sincronia que aqueles que já tinham presenciado a “doutrina Tite” em tantas jornadas no Pacaembu ou Itaquera têm de memória: compactação total entre as linhas, um tridente para organizar o jogo e liberar um dos armadores, avanços pautados pelas triangulações nos lados do campo, a ganhar o terreno metro por metro etc. etc.

Alguns lembrarão dos momentos de glória da primeira passagem de Dunga, como os títulos das Copas América (2007) e das Confederações (2009), além das vitórias fora de casa contra Uruguai (4-0) e Argentina (3-1) pelas Eliminatórias. Mas também podemos mencionar o 0-0 com a Bolívia no Engenhão, a primeira derrota da história para a Venezuela, o massacre equatoriano em Quito, quando Júlio Cesar no auge da carreira garantiu um empate que merecia derrota por larga margem, para não falar das mesquinhas vitórias à base de bola parada e “faltas táticas”.

Enfim, era um time que “brilhava” a partir do sistema defensivo e letalidade no contra-ataque. Quando instado a tirar outra carta na manga, como na famigerada quarta de final contra a Holanda, não havia qualquer repertório extra (mesmo porque aquela convocação de 2010 ficará para os anais do puro e simples mau gosto…). Havia quem gostasse. Este modesto corneteiro sempre achou repugnante (tenho provas guardadas em casa).

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É certo que o recomeço em Quito escancarou que, dessa vez, os jogadores não compraram o peixe de Dunga. Os arrastadíssimos jogos da Copa América Centenário foram providenciais para por fim ao que o elenco parecia sentir como um martírio.

De toda forma, os jogos seguintes vieram para referendar que pelo menos uma coisa mudara para melhor no país. A vitória contra a dura Colômbia teve a mesma coesão e lucidez da equipe, cuja sequência mostrou que vencer Bolívia e Venezuela ainda pode ser mero trâmite burocrático.

Refeito, na bola e na tabela, veio o primeiro grande clássico. E que atropelo o Mineirão voltou a ver. Desta vez, para alegria geral do chique público presente (como dito, as mazelas prosseguem fora das quatro linhas).

Certamente, foi a vitória mais fácil e evidente contra a Argentina que me consta na memória. Para os iniciados, nem o domínio inicial da Albiceleste significava muito. Tem-se um time que joga ofensivamente, busca dominar a partida e se impor, mas aceita perfeitamente o momento favorável do adversário, recua e espera a escapada certa.

Com organização aliada ao talento individual de seus comandados, o Brasil chegou facilmente aos 2 gols, construídos em não mais que três chegadas de perigo. Até pela desolação do lado oposto, o jogo já conhecia seu vencedor no intervalo.

No segundo tempo, a mesma ocupação perfeita de espaços e leitura impecável da partida. Detectada a destruição moral do rival, o combate se dava logo à frente. E sem nenhuma surpresa veio o terceiro gol, com a chegada ainda menos surpresa de Paulinho, de tantos gols similares em preto e branco.

E depois de sabe-se lá quantos anos, seguiram-se gracejos, firulas, olé pra lá, olé pra cá. No final, um preço de “vizinho carinhoso”, como definido na desenganada crônica de Martin Caparrós no Olé.

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É certo que as dores recentes e a perda da identidade cultural com a seleção continuam na ordem do dia, mas para aqueles que já vinham considerando a inédita exclusão da Copa do Mundo uma “necessidade histórica”, além de merecida por toda corja que tomou – e continua a tomar – nosso futebol de assalto, esta breve obra de Tite já merece registro.

É surreal dizê-lo com tamanha segurança, mas o teclado praticamente digita sozinho: o Brasil não só está classificado para a Copa da Rússia como já desponta como franco favorito ao título. Tite é o meu pastor e nada me faltará.

Argentina em desencanto

Se o Brasil achou um guia para tirá-lo da perdição, a Argentina parece jogar-se no divã de bruços e sem tirar o paletó. Afundada na mesma crise institucional do vizinho, com a AFA em frangalhos, a aguardar novos rumos enquanto conhecidas correntes (ainda) se organizam para assumi-la, a desmoralização é total em campo.

As entrevistas dadas logo após o massacre do Mineirão demonstram por si o grau de desânimo dos atletas, simbolizado na declaração de Messi, de cuja verve não se tem memória e, portanto, inusitada pelo simples fato de conter a palavra merda.

Parece que Bauza não consegue “entrar” no grupo de atletas, que por sua vez parecem, simplesmente, de saco cheio de jogar, jogar, jogar e ser vice no final.

Vê-se um tom tão insosso em atletas como o impecável Mascherano que parece começar a ser gestada nas cabeças dos jogadores uma espécie de racionalização da tragédia, a convencer a todos de que, no fim das contas, nem vale a pena ir para a Rússia. “Estamos numa situación de mierda e, se é assim, melhor ficar em casa mesmo”.

Enquanto as imagens da televisão nos fazem voltar a miragens de pandeiros fervilhantes, os vizinhos que se afastem das milongas.

Os quadros táticos são contribuição do professor Felipe EL BIGLIA DE LA GENTE Dominguez, cujo pizarrón é conhecido aqui e na várzea paulistana.

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