As Melhores de (meu) 2020

Por Luiz Felipe de Carvalho

Lá vamos nós para mais uma edição da coluna com as melhores músicas de meu ano. E que ano, hein? Já era previsto que seria ruim do ponto de vista político-social, tendo em vista o néscio que ora nos preside. Mas puta que o pariu, uma pandemia justo com o referido biltre como “comandante” da nação? Não foi (e não está sendo) fácil. No entanto, a arte, aquela mesma tão odiada, vilipendiada, mal-falada, vilanizada, acabou sendo um arremedo de tábua de salvação no meio de tanta coisa ruim.

Antes de partir pras músicas, algumas considerações que faço todo ano: não consumo música por streaming, apenas por CDs, que coleciono e compro em quantidade maior do que deveria, e menor do que gostaria. Também quase nunca ouço álbuns lançados no mesmo ano, em geral faço uma “comprona” de CDs a cada ano ou dois, compro alguns em sebos quando estou viajando, mas quase nunca são discos recém lançados (e neste ano em especial a seleção final ficou bem “velhinha”). Também raramente ouço coletâneas, tento me ater a discos de carreira.

Ouvi 64 discos no ano passado, dos quais 33 eram internacionais e 31 nacionais, mantendo um equilíbrio que não é totalmente intencional (mas de certa maneira é, afinal, eu que escolho o que compro).

Sem mais, às faixas, pois, sem ordem de preferência. Espero que lhe tragam algo de fresco – e de bom.

1 – Virus – Artista: Björk – Composição: Björk/Sjón – Álbum: Biophilia (2011)

Eu sei, este título de música é absolutamente impróprio para este ano. Mas “Virus” é uma faixa que eu já imaginava que entraria aqui desde quando a ouvi, em janeiro do ano passado. Lembra, quando o pior que poderia acontecer era uma Terceira Guerra Mundial? Tempos bons, aqueles. Eu nunca tinha ouvido um disco inteiro da Björk, e me preparava para esquisitices mil. O disco é conceitual, e se propõe a tratar de vários aspectos naturais e cósmicos, e é de fato esquisito. Mas há coisas lindas, como esta faixa, etérea e hipnotizante, e com uma letra que compara o amor a um vírus. O som principal da música vem de um instrumento de teclas chamado Gameleste, criado especialmente para este álbum. É ele que dá essa aura meio angelical à canção, junto às lindas vocalizações de Björk entre as estrofes.

Obs: para ler a tradução meio mandrake que eu fiz da letra, assista ao vídeo direto pelo YouTube (basta clicar onde está escrito “YouTube”, no canto inferior direito do vídeo aqui embaixo, após dar o “play”) e procure nos comentários por Luiz Felipe Pereira de Carvalho.

2 – I fell in love one day – Artista: Arnaldo Baptista – Composição: Arnaldo Baptista – Álbum: Singing´ Alone (1982)

Confesso que não sou um grande fã dos Mutantes. A esquisitice, o sarcasmo e a ironia como aparente obrigação me afastam, emocionalmente, da banda – embora lhe reconheça os valores. Então este ano fui ouvir alguns discos solo de Arnaldo Baptista sem esperar muita coisa. E descobri que, se Arnaldo quisesse, ou pudesse, fazer um disco de canções, apenas canções, com seu piano lindamente tocado, suas letras que também sabem ser profundas sem serem herméticas e suas melodias bem cantadas, ele poderia fazer um puta disco comercial, e de qualidade ao mesmo tempo. Mas aí ele não seria o Arnaldo Baptista. Mais ou menos como alguém escreveu, brilhantemente, na ocasião da morte de Maradona (infelizmente não lembro onde li): se ele fosse “domado”, aquele jogo da Copa de 1986 teria sido 1×0 pra Inglaterra. Esta faixa é linda, melancólica, simples, mas ao mesmo tempo com belas harmonias ao piano. Aliás, sobre o instrumento, Arnaldo diz no encarte, falando sobre esta faixa: “O lado piano me dava mais liberdade no sentido da emoção. Na guitarra não consigo tanta inspiração de paixão, coração, como no piano”. Ouvir a música é constatar essa verdade.

Obs: para ler a tradução meio mandrake que eu fiz da letra, assista ao vídeo direto pelo YouTube (basta clicar onde está escrito “YouTube”, no canto inferior direito do vídeo aqui embaixo, após dar o “play”) e procure nos comentários por Luiz Felipe Pereira de Carvalho.

3 – If you tolerate this your children will be next – Artista: Manic Street Preachers – Composição: Bradfield/Jones/Moore – Álbum: This is my truth tell me yours

Não é muito fácil escrever músicas sobre política. A chance de soar chato e panfletário é grande. Música pop é entretenimento, mas é muito bom quando ela também consegue ser relevante e tocar em temas sérios, sem perder o apelo popular. Todo esse disco dos Manic é bastante político, mas cheio de canções altamente cantaroláveis, como esta aqui. Seu título (em português algo como “Se você tolerar isso, seus filhos serão os próximos”) foi inspirado em cartazes que os republicanos usavam para angariar soldados para sua causa, contra os fascistas de Franco. Muitos que lutaram, especialmente no começo da Guerra Civil Espanhola, eram pessoas do povo, sem qualquer experiência militar. Por isso versos como “Se eu posso atirar em coelhos/ Então eu posso atirar em fascistas”. A música não pretende ser uma aula de História, muito menos este texto. A mensagem principal é que, ao nos calarmos para injustiças, podemos estar condenando as futuras gerações, que sofrerão as consequências. Não sei se soa atual, mas algo me diz que sim.

Obs: para ler a tradução meio mandrake que eu fiz da letra, assista ao vídeo direto pelo YouTube (basta clicar onde está escrito “YouTube”, no canto inferior direito do vídeo aqui embaixo, após dar o “play”) e procure nos comentários por Luiz Felipe Pereira de Carvalho.

4 – Fico louco – Artista: Isca de Polícia – Composição: Itamar Assumpção – Álbum: Beleléu, Leléu, Eu (1980)

Embora a capa deste disco envergue o nome “Isca de Polícia”, se trata do primeiro álbum de Itamar Assumpção, que a partir do segundo disco já começou a colocar seu nome na capa. Conheci Itamar através da Zélia Duncan, que gravou algumas músicas dele, e recentemente comprei uma caixa com todos os onze discos do artista. No ano passado ouvi os dois primeiros, e esperava algo bem pouco comercial. Acabei me surpreendendo pela “radiofonicidade” de algumas canções, como esta aqui, um reggaezinho, que começa com um solinho de piano fender, e em que Itamar faz troça sobre sua mistura de ritmos com os versos “Espero ver você curtindo o reggae deste rock comigo”. Itamar canta, toca guitarra, baixo e percussão na faixa, para não restar dúvidas de seu talento. Além disso, dá um significado amplo à palavra “interpretar”, com seu jeito às vezes teatral de cantar, refletido também no criativo arranjo.

5 – O lobisomem do Jangurussu – Artista: Caixeiros Viajantes – Composição: Pedro Anderson Viajante – Álbum (EP): Luzes da Cidade (2017)

Conheci essa banda cearense de maneira bem oblíqua. Eu era membro de um clube de assinatura chamado Clube Box, focado em cultura pop, que mensalmente me mandava um DVD, uma camiseta e um livro, de um tema específico. Certa vez, junto com o clube, veio este EP, com 5 faixas, como uma espécie de bônus. Me fez perceber, mais uma vez, como tem coisa boa sendo feita por aí afora, e nós não ficamos sabendo. As cinco faixas são ótimas, mas “O lobisomem do Jangurussu” é um rubi. Com mais de seis minutos de duração, a música se recusa terminantemente a ficar chata, mantendo o ritmo lá no alto. Jangurussu é um bairro de Fortaleza, e a letra é cheia de referências à cidade, que talvez só um morador compreenda totalmente. Mas não é preciso. Não saber talvez até dê mais sabor à história, que mistura a lenda sobre o surgimento de um lobisomem com crítica social – esta, aliás, uma marca da banda, a julgar por este EP.

6 – Cristo, quem é você? – Artista: Odair José – Composição: Odair José/Silva Santos – Álbum: Assim sou eu… (1972)

Já fazia algum tempo que eu tinha comprado uma caixinha com quatro discos de Odair José lançados na década de 1970. Demorei um pouco para ouvir, ressabiado que estava, preocupado de achar uma merda. E no fim acabou sendo difícil decidir qual das músicas entraria aqui, entre tantas que gostei. Harmonicamente, talvez Odair não seja muito sofisticado, e melodicamente talvez não seja muito diversificado. Mas é um baita compositor popular, com letras diretas, que a gente já sai cantando à primeira ouvida. Justamente por ele ser tão conhecido por suas canções românticas, escolhi uma faixa religiosa. Roberto Carlos também fez muitas faixas dedicadas a Deus, ou Cristo, mas nenhuma tão questionadora quanto essa de Odair. Além da letra, vale reparar no instrumental foda, feito pela banda Som Imaginário, criada originalmente para acompanhar Milton Nascimento, mas que acabou ganhando vida própria.

7 – Flowers never bend with the rainfall – Artista: Simon and Garfunkel – Composição: Paul Simon – Álbum: Parsley, Sage, Rosemary and Thyme (1966)

Passei minha vida inteira ouvindo só as “best of” da dupla Simon And Garfunkel. Este disco tem algumas delas: Scarborough Fair, Homeward Bound, etc. Mas sempre fico feliz quando percebo o quanto de coisas lindas há para serem descobertas muito além dos “greatest hits”. Eu colocava essa música no repeat, só para cantar junto seu refrão irresistível. Paul Simon é um dos maiores melodistas da história da música pop (para mim o maior, junto com outro Paul, lá de Liverpool), e acho que há poucas dúvidas quanto a isso. Mas é também um letrista especial, porque muitas vezes precisa de poucos versos para dizer o que quer dizer, como nesta faixa. Desta vez encontrei um vídeo no YouTube com uma tradução em português muito bem feita, então nem precisei traduzir.

8 – Be here to love me – Artista: Norah Jones – Composição: Townes Van Zandt – Álbum: Feels like home (2004)

Eventualmente nestas listas entram canções cujo foco maior não é a melodia. Mas, como já deixei claro em um texto antigo aqui na Central3 (este aqui), minha deusa primeira é a melodia. Comprei este disco de Norah Jones em março de 2020, em um sebo de Curitiba, numa viagem de férias feita um pouco antes de o mundo entrar em animação suspensa. É o segundo disco de Norah, ainda bem parecido com o primeiro (que tinha “Don´t know why”, um sucesso daqueles de enjoar de tanto tocar), uma mistura de folk e jazz. Essa lindeza foi minha faixa preferido do disco, e me fez ter vontade de ir atrás de mais coisas de Townes Van Zandt, o compositor da canção.

9 – Déjà vu – Artista: Roger Waters – Composição: Roger Waters – Álbum: Is this the life you really want? (2017)

O título desta música vem a calhar, já que quem gosta de Pink Floyd vai sentir uma sensação de já ter ouvido isso antes. De fato, a canção se parece com algumas da antiga banda de Roger, seja na melodia, seja no arranjo, seja nos efeitos sonoros que trazem ainda mais impacto emocional a uma letra que já é fortíssima – como as janelas se quebrando logo depois de um determinado verso. O disco todo é marcadamente político, falando de drones análogos a um deus do mal, pessoas que morrem esquecidas, capitalistas, Donald Trump, guerras inúteis, e até amor. Em “Déjà vu”, Roger compara a capacidade humana de machucar seus semelhantes à insensibilidade de um deus que não se preocupa com sua criação. É forte, é poderoso, e me faz chorar toda vez que ouço. E também me traz um sorriso triste no rosto, de constatação, quando ouço os versos “Você se inclina à esquerda/ Mas vota à direita”.

Obs: para ler a tradução meio mandrake que eu fiz da letra, assista ao vídeo direto pelo YouTube (basta clicar onde está escrito “YouTube”, no canto inferior direito do vídeo aqui embaixo, após dar o “play”) e procure nos comentários por Luiz Felipe Pereira de Carvalho

10 – Morning Glory – Artista: Tim Buckley – Composição: Beckett/Buckley – Álbum: Goodbye and hello (1967)

Para quem acha que um álbum de música pop não pode se elevar ao patamar de arte, este “Goodbye and hello” é uma eloquente prova em contrário. O disco transborda arranjos artesanais, complexos, cheios de atmosferas, com letras plenas de lirismo, melodias ancestrais e uma voz de bardo, emocional e dramática. O mais impressionante é que Tim tinha apenas vinte anos quando o disco foi lançado (melhor nem pensar no que eu estava fazendo aos vinte anos). Entre as dez faixas, escolhi aquela que encerra o disco, um absurdo de lindeza, com coral gospel, violino, piano e linda letra. A faixa foi gravada por muitos artistas no decorrer dos anos. O vídeo abaixo contém a tradução em português. A letra é um tanto misteriosa, e até hoje é motivo de discussão entre os fãs do cantor, em relação ao real significado da “fleeting house” (que no vídeo está traduzido como “casa alugada”, mas seria mais algo como “casa passageira”) e das demais imagens da letra. Diz-se que a tal “casa passageira” seria a fama, e sua efemeridade. Mas convém cada qual fazer sua interpretação. Que a música é linda, independentemente do que diz a letra, é inegável.

11 – Vou brigar com ela – Artista: Carlos José – Composição: Lupicínio Rodrigues – Álbum: Eu e o meu coração Vol. 1 – Lupicínio Rodrigues (1996)

Este CD faz parte de uma caixa com quatro discos, dedicada a Lupicínio Rodrigues. Comprei um dos discos, avulso, em um sebo em Lumiar (RJ). O critério da caixa é muito interessante: buscar sempre a primeira gravação de cada uma das composições de Lupicínio Rodrigues, feitas em disco de 78 rotações. Entre os nomes dos intérpretes presentes, há Francisco Alves, Ângela Maria, Nelson Gonçalves, Linda Batista, entre outras estrelas. E há também nomes menos conhecidos, como o deste Carlos José (enquanto escrevia o texto fui pesquisar mais sobre o cantor, e descobri que ele faleceu em maio do ano passado, vítima da Covid-19). A letra fala de um homem bravo com uma mulher, por motivos que hoje soariam machistas, mas que à época eram comuns. Mas o que é mais bonito na interpretação de Carlos José é como sua voz dolorida desdiz tudo que a letra fala. Ficamos achando que ele não vai conseguir brigar com ela coisíssima nenhuma. Curiosidade: a canção também é chamada de “Paciência”, e foi gravada por três pessoas diferentes no mesmo ano de 1961 (Mauricy Moura e Sílvio Caldas, além de Carlos José).

Obs: não encontrei a faixa sozinha no YouTube, para ouvi-la basta pular para o minuto 7:08 no vídeo abaixo.

12 – Já desmanchei minha relação – Artista: Nervoso – Composição: Nervoso – Álbum: Saudade das minhas lembranças (2004)

No mesmo sebo em Lumiar (RJ), onde comprei o disco acima, também adquiri este. Na hora de passar no caixa, o vendedor me disse “Nervoso é bom pra caralho, né?”, e eu respondi “não sei, tô comprando por causa da capa, e porque gostei dos nomes das músicas”. Convenhamos, são critérios inquestionáveis. Como não sair da loja com aquele coração explodindo em sangue, e com títulos de música como este aqui? Só depois descobri que o cara tocou bateria no Acabou La Tequila, formou o Autoramas, tocou bateria no Matanza, tocou bateria com Wander Wildner, e até já tocou num show do Los Hermanos, por conta de um problema de saúde do Barba. Esta faixa não é uma varinha de bambu com um anzolzinho, é uma pesca de arrasto, que te pega pelo cangote no começo e só vai te largar depois de mais de quatro minutos. O rock pode ser muitas coisas, mas primordialmente ele é energia pura, como a que encontramos aqui.

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