Um auxílio-moradia de juiz vale dois professores

Com o reajuste do Piso Salarial do Magistério no Brasil no fim do ano passado, finalmente um professor valerá mais do que meio auxílio-moradia de um magistrado. O auxílio de um juiz custa R$ 4.377,73. Dividido por 2, o valor é de R$ 2.188,86.

Como até o ano passado, o Piso Salarial do Magistério no Brasil era de R$ 2.135,64, um professor valia menos do que meio penduricalho-moradia. Felizmente agora o magistério já pode comemorar: um professor passará a valer mais do que meio privilégio-moradia de magistrado.

O Piso Nacional subiu para R$ 2.455,35. Um reajuste “impressionante” de 6%.

De todos os casos de penduricalho-moradia, chamou a atenção esta semana o do casal de juízes Marcelo Bretas e Simone Diniz Bretas. Sem entrar nos méritos de seu trabalho que levou à prisão figuras como Sérgio Cabral, é preciso que se destaque o seguinte: só o penduricalho-moradia dessa família equivale a mais de QUATRO salários de Professores brasileiros.

E a família Bretas recebe tudo isso morando na mesma casa, contrariando a resolução 199/2014 do Conselho Nacional de Justiça (que impede o recebimento em dobro do auxílio por casais de magistrados), na mesma cidade em que trabalham.

Mas a ironia trágica é que a nossa República sempre guarda um alçapão a mais por onde descemos mais um andar no subsolo da iniquidade. O presidente da Associação de Juízes Federais que defendeu com unhas e dentes o privilégio dos Bretas, recebe ele próprio o mesmo penduricalho em dobro. Fabrício Fernandes também é casado com um juíza e defende com entusiasmo os auxílios dos Bretas para defender o seu próprio auxílio dobrado.

Como um caleidoscópio, descemos por outro alçapão para ver que tanto quem defende o benefício quanto quem o investigou também o quer do mesmo jeito. O Procurador da Advocacia-Geral da União que revelou os penduricalhos dos Bretas, Carlos André Studart Pereira, também pleiteou na justiça o penduricalho-moradia.

Enquanto briga para moralizar a política brasileira e estrategicamente reverter para si os ganhos morais desse processo de judicialização da política, o Judiciário enfia o pé na lama e ignora o quão absurdo é a existência desse nobreza togada que só de auxílio-moradia embolsa mais de R$ 1 bilhão todos os anos dos cofres públicos.

Afora muitos outros auxílios com alimentação, saúde, livros, carro oficial, estudo remunerado, duas férias por ano… Tudo isso num país em que desembargador recebe, só de salário, mais de 30 salários mínimos. Com tantas regalias, não é difícil entender que essa elite togada vive num Brasil paralelo.

Já que o brasileiro parece tão empenhado a consertar o país, quando voltaremos nossa artilharia para derrubar o desonroso muro da realidade paralela do Judiciário?

 

André Raboni é historiador, analista de comunicação e mídias digitais. Especialista em política e comunicação.

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