Experiências

Me sinto um tanto velho falando de algo que aconteceu comigo há vinte anos. Se fosse algo que aconteceu há vinte anos, mas que tem a mim como um personagem infantil, vá lá. Mas na estória que quero contar eu já tinha lá meus dezessete. Era 1997, ou 1998, não sei ao certo. Meu primeiro emprego com carteira assinada, na Livraria Siciliano – que já não existe mais, foi comprada pela Saraiva, olha a velhice aí de novo. Uma amiga que trabalhava lá ajeitou para que eu entrasse, e fui parar na sessão de CDs – essa ainda existe na Livraria Saraiva, sabe-se lá até quando.

Assim que fui admitido, a gerente me disse que o público que frequentava a sessão de CDs da loja era diferenciado, e gostava de música clássica e new age. Era, portanto, crucial que eu aprendesse o que podia sobre esses estilos para que passasse na experiência de três meses e me tornasse efetivo. Eu não fazia ideia do que fosse new age. Sobre música clássica, devo dizer que anoto todos os filmes que assisto desde muito novo, e acabo de descobrir que assisti “Amadeus” em 20/04/1996. Provavelmente isso era tudo que eu sabia de música clássica.

A loja ficava dentro de um shopping, eu tinha que trabalhar aos domingos, ganhava pouco, sentia a pressão do primeiro trabalho formal, mas no fim das contas estava dentro de um templo maravilhoso, que talvez eu não tivesse consciência na época de quão valioso poderia ser. Fato é que até acabei me inteirando um pouco sobre quem eram Enya, Loreena McKennitt, entre outros nomes da new age, mas não fiquei nada craque no assunto, muito menos em música clássica. Um pouco de indolência, é possível. Se sou indolente hoje, acho que “adolescente-quase-adulto” era mais ainda.

(Um aparte curioso: certa vez a gerente da loja me pediu para limpar o vidro que dividia a livraria da sessão de CDs. Me deu lá os apetrechos necessários, e eu fiquei com cara de “ué”. Ela perguntou se eu nunca tinha limpado um vidro na vida. Eu respondi que não.)

Não sei se foi o vidro ou minha falta de interesse em aprender o que era necessário para tão seleto público, mas o que se deu é que eu não passei na experiência de três meses, e fui mandado embora. Em meu lugar, me lembro bem, entrou um camarada chamado Leandro, que fazia parte do fã clube da Loreena McKennitt. Aí é covardia, quem, no Brasil, faz parte de um fã clube da Loreena McKennitt? Detalhe irrelevante: esse cara, além de me tirar o emprego, era ex-namorado da então namorada do meu irmão. Mas, verdade deve ser dita, era gente boa pra cacete, e não tinha culpa nenhuma de nada. Chegamos a trabalhar um tempo juntos, sem que o idiota aqui percebesse que estava de saída.

(Um aparte vingativo: pouco depois que saí da livraria passei num concurso público e segui minha vida. Voltei à Siciliano como cliente, e encontrei uma antiga colega, que me informou que a gerente da loja tinha feito o mesmo concurso que eu, mas não tinha passado. Não sei limpar vidro, mas sei passar em concurso, baby.)

Durante meu tempo na loja, uma das coisas mais legais é que tínhamos uma certa liberdade de colocar o que quiséssemos para ouvir. Claro que a preferência era por lançamentos que vendiam bastante (me lembro que o CD do Caetano, “Prenda minha”, aquele que tinha “Sozinho”, tocou até o cu fazer bico), mas havia espaço para brincar um pouco. Eu e um bom colega (que morava num bairro perigoso e me confessou que às vezes fazia aviãozinho pra traficante) adorávamos colocar um CD do Renato Teixeira. Certamente não era um campeão de vendas, mas sempre que ninguém estava olhando, lá íamos nós botar Renato pra cantar. E esse CD é, afinal, sobre o que eu quero falar.
Seu nome é “Um poeta e um violão”, e sabe aquela história dos dez discos pra levar pra ilha deserta? Esse certamente seria um dos meus. Considero uma obra prima da música brasileira, e vou tentar explicar brevemente o porquê.

Seu nome resume bem sua proposta: apenas Renato e seu violão. O conceito é radical, não há espaço para nenhuma outra intervenção. A impressão é que o artista está tocando ao seu lado. Algumas pequenas falhas do violão e da voz permanecem na mixagem, dando vida ao registro, e intensificando a sensação de proximidade. Mas além de ser um álbum conceitual na forma, também o é no conteúdo. Renato canta a vida do homem simples, do homem da terra, e da relação deste com a natureza. Mas não é preciso viver numa fazenda para se identificar. O disco também fala de amor. E mesmo quando fala de amor, existe simplicidade. Uma simplicidade genial, que traz versos como “Todo silêncio do mundo/ Não vale o segundo/ De um beijo”. Conceito nenhum se sustentaria se as músicas não fossem boas. E a verdade é que se trata de uma coleção de doze músicas irrepreensíveis (tá, pra não dizer que é irrepreensível, contesto a presença de uma versão em espanhol de “Tocando em frente”, que me parece deslocada no disco).

Não, não consegui trabalhar na Siciliano pelo tempo que eu queria. Sabe-se lá o que seria da minha vida caso tivesse continuado por lá. O efeito borboleta me traria a um lugar (simbólico e, quem sabe, físico) completamente diferente do que estou hoje, certamente. Mas, embora não tenha passado na “experiência”, esse disco valeu mais do que qualquer experiência. “Um poeta e um violão” foi o presente que eu recebi, muito maior do que os três salários mixos ou o mirrado FGTS.

O disco está inteiro no Youtube. Mas vou colocar aqui a música que eu acho que sintetiza o que ele é. Não por acaso ela contém o verso que para mim é o mais simbólico do cd: “Um homem simples que conhece a natureza/ Acostumou-se à beleza, vive disso e é feliz”. Tem uma música de Maiara & Maraísa chamada 10%, que é até divertida, e que tem 422.798.608 de visualizações no Youtube (17/01/2018 às 23:35). Esta que posto abaixo tem 61. Uma pequena defasagem que, com a força da Central 3, certamente será corrigida em breve.

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