Xadrez Verbal #222 Assembleia Sitiada

A dupla Filipe Figueiredo e Matias Pinto chega com as últimas notícias dos EUA, tanto as sobre sua política externa quanto as internas, como a reclamação de William Barr de que Trump tem tuitado demais.

Ao sul do Rio Grande, mais precisamente em El Salvador, o não tão guapo presidente Nayib Bukele ensaiou um golpe contra o parlamento de seu país.

Por fim, repercutimos as eleições irlandesas, com um desempenho histórico do Sinn Féin, braço político do IRA durante décadas!

Posts Relacionados

El Salvador, Paul David e Clemente Tadeu

EL SALVADOR

El Salvador é um pequeno país localizado na América Central, que tem o tamanho do Estado de Sergipe (estou aqui corroborando com uma mania dos jornalistas brasileiros de sempre comparar um lugar a Sergipe quando querem salientar sua pequenez territorial). Apesar de pequeno, o país viu acontecer em suas terras um dos conflitos mais sangrentos de toda a América Latina, uma guerra civil que se estendeu por doze anos e deixou dezenas de milhares de mortos.

Depois de uma sequência de governos militares o país começou a ver florescer alguns grupos de esquerda, motivados pelo sucesso da Revolução Cubana e da ascensão dos sandinistas (guerrilheiros de esquerda) na Nicarágua. Em 1979 uma junta militar deu um golpe de estado derrubando o governo do General Carlos Humberto Romero, cujas eleições tinham sido fraudulentas. Ou seja, foi como um golpe dentro do golpe – algo com que brasileiros estão acostumados. O estopim para a guerra civil se deu com o assassinato do arcebispo Oscar Romero, opositor do novo regime, e o posterior assassinato de 42 pessoas durante seu enterro. A partir daí a guerra se deflagrou, com a união de cinco grupos guerrilheiros formando a FMLN (Frente Farabundo Marti de Liberación Nacional) de um lado, e os esquadrões da morte do governo militar do outro.

Preocupados com a insurgência popular em mais um país da América Central, área de seu controle habitual, os Estados Unidos passaram a ajudar financeiramente o governo de El Salvador contra os guerrilheiros. As cifras dessa ajuda, durante todo o período da guerra, chegaram a mais de 7 bilhões de dólares, e vieram dos governos de Jimmy Carter, Ronald Reagan e Bush pai. Por outro lado, dentro do contexto da Guerra Fria, os EUA acusavam Cuba e a União Soviética de fornecerem armas para o FMLN. Em matéria de O Globo, publicada em 1982, aparece uma declaração do então secretário de Defesa americano, Caspar Weinberger: ““Os Estados Unidos não permitirão que El Salvador, no continente dos EUA, se transforme num bastião do comunismo”. “No continente dos EUA”, ele disse. Prepotência pouca, não?

Fato é que mesmo com o fim da guerra em 1992, depois de um acordo de paz mediado pela ONU, os problemas de El Salvador não foram resolvidos. O país continua sendo pobre, e um dos mais violentos das américas. Oligarquias permanecem, mas o povo, no fim, é quem mais sofre, antes, durante e depois de qualquer guerra. Para os Estados Unidos, mesmo que os grupos de esquerda não tenham sido exterminados, ficou um saldo positivo, já que seu poder na região permaneceu, e os grupos guerrilheiros foram dissolvidos – o que, para os interesses americanos, deu na mesma. Com o fim da guerra a situação voltou rapidamente aos “eixos”, com governos de direita no poder, e a influência estadunidense no país sendo mantida.

PAUL DAVID

Paul David Hewson (10/05/1960) tinha 26 anos e era líder e vocalista de uma banda de rock que já tinha lançado quatro álbuns de estúdio e um disco ao vivo. Todos fizeram sucesso, mas a banda ainda não tinha estourado definitivamente. Faltava aquele grande disco para colocá-la de vez como uma das grandes. O disco concebido pelo jovem irlandês tinha como tema os Estados Unidos da América. Para conquistar o mundo ele precisava conquistar a América. O álbum, que no fim se chamou The Joshua Tree (uma árvore comum no deserto americano), chegou a ter The Two Americas como título provisório. A ideia era falar das duas américas, a mitológica e a real. Há bastante conteúdo político nas letras, nem sempre de maneira elogiosa à atuação do país homenageado.

Um dos exemplos é a canção “Bullet the blue sky”. Em meados de 1986 o jovem Paul David foi com sua esposa à América Central, visitando El Salvador, entre outros países. Ali ele pôde presenciar o sofrimento dos camponeses com a guerra civil que já se arrastava por alguns anos. Como um homem de fé, o jovem ficou incomodado com o fato de americanos cristãos apoiarem a ajuda financeira de seu governo a atos de guerra violentos em outro país, inclusive com a morte de milhares de inocentes. Ao voltar para junto de seus companheiros de banda, Paul David tentou transmitir toda sua indignação com o que tinha visto. Ele disse a seu guitarrista David Howell Evans que queria colocar “El Salvador pelos amplificadores”. Usando um poderoso efeito em seu instrumento, e com a ajuda da raiva com que toda a banda tocou, a canção se tornou marcante, e é peça importante dos shows da banda até hoje, sendo usada para diferentes manifestações políticas durante os concertos.

O próprio vocalista afirmou que uma parte da letra que fala de um homem colocando notas de dólar sobre uma mesa enquanto aviões de guerra passam “pelas cabanas de barro onde as crianças dormem”, se refere ao presidente americano Ronald Reagan.

(Há versões ao vivo legendadas no Youtube, mas o efeito “El-Salvador-pelo-amplificador” não aparece tanto. Portanto segue o vídeo da versão em estúdio, e a letra traduzida logo abaixo)

Disparos no céu azul

No uivar do vento
Vem uma chuva de espinhos
Direcionando canivetes
Nas almas da árvore da dor

Do helicóptero
Vem um brilho vermelho alaranjado
Vejo a face do medo
Correndo assustada pelo vale abaixo

Disparos no céu azul

Na nuvem de gafanhotos
Vem um chocalho e um zumbido
Jacó lutou contra o anjo
E o anjo foi derrotado

Plante uma semente do demônio
E crescerá uma flor de fogo
Nós os vemos queimando cruzes,
Veja as chamas, cada vez maiores

Disparos no céu azul

De terno e gravata ele se aproxima de mim
Seu rosto vermelho como uma rosa num espinheiro
Como todas as cores de um royal flush
E ele está contado aquelas notas de dólar
Pondo-as na mesa
“Cem, duzentos”

E eu posso ver aqueles aviões de guerra
E eu posso ver aqueles aviões de guerra
Pelas cabanas de barro onde as crianças dormem
Pelas vielas de uma cidade tranqüila
Pela escadaria até o primeiro andar
Viramos a chave e lentamente destrancamos a porta
Enquanto um homem assopra um saxofone
E pelas paredes você ouve a cidade rosnar
Lá fora é a América
Lá fora é a América
América

Veja pelos campos
Veja o céu rasgado
Veja a chuva atravessando a ferida aberta
Uivando nas mulheres e crianças
Que correm em direção aos braços
Da América

CLEMENTE TADEU

Clemente Tadeu Nascimento (12/05/1963) tinha vinte anos e era o líder, vocalista, baixista e principal compositor de uma banda punk paulistana, no começo do movimento no Brasil. As dificuldades eram enormes, dado todo o estigma que sempre acompanhou (acompanha?) as pessoas identificadas com essa cultura. Apesar dos perrengues a banda consegue lançar seu primeiro disco, “Miséria e Fome”. Inicialmente programado para ser um LP, o disco acabou virando um EP (com menos músicas), já que todas as faixas foram censuradas pela ditadura militar que ainda comandava o país. Eles acabaram alterando a letra de três delas para lançar o trabalho encurtado.

Uma das faixas que acabou indo parar no disco foi “(Salvem) El Salvador”, em que o jovem compositor retrata de maneira lúcida, ferina e sarcástica o conflito que destruía o pequeno país. Escrita provavelmente quando o artista tinha menos de vinte anos, é de se admirar a consciência que a letra revela, especialmente na constatação de que o lado mais fraco, e que mais sofre, é sempre o povo. Brilham também os versos que indicam a escolha impossível que está diante deles: “Entre ser uma base militar russa/ Ou um bordel americano/ É liberdade que o povo clama”. A faixa esteve presente no lendário disco ao vivo “O começo do fim do mundo”, gravado no também lendário festival homônimo, o primeiro do gênero no Brasil, organizado pelo escritor e ativista cultural Antonio Bivar no final de 1983. Nesta versão o vocalista diz “Ei guerrilheiros, salvem El Salvador” logo no comecinho da performance.

Musicalmente, é interessante notar como a introdução, com o baixo sinistro de Clemente Tadeu em primeiro plano e uma guitarra estridente e cheia de efeitos por trás já nos remetem a uma guerra, que se torna explícita quando a mesma guitarra, aos 2min33s, imita o som de uma metralhadora (algo que já acontecia durante toda a música, mas não com tanta clareza).

(Apesar de a letra ser em português, há alguns trechos difíceis de entender, por isso a letra está logo abaixo do vídeo)

(Salvem) El Salvador

Dos dois lados, há homens armados
De fuzis e metralhadoras prontos pra matar
De um lado, fardas a comandar
Do outro, a vontade de viver e se libertar
O povo é o lado que tem mais baixas
Por que não tem armas na mão para se defender
E em nome da liberdade de El Salvador
Todo dia está a morrer
Por isso
Salvem El Salvador

Em sua heróica resistência à invasão soviética
Tio Sam sujou suas mãos de lama
Entre ser uma base militar russa
Ou um bordel americano
É a liberdade que o povo clama
Nos campos onde jorravam os rios
E haviam plantações prontas pra se colher
Hoje os rios são de sangue
E o povo colhendo cadaveres
Você pode ver
Por isso
Salvem El Salvador

Posts Relacionados