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The Sound Of Silence

Apesar do bom começo de temporada para o Hannover 96 na Bundesliga, nem tudo são flores perante a torcida que declarou uma greve de silêncio dentro e fora do Niedersachsenstadion.

A medida radical é um protesto à tentativa do presidente, o milionário Martin Kind, de comprar o clube quebrando assim a tradicional regra dos 50% + 1 do futebol alemão, criada em 1999 e que protege os torcedores alemães de possíveis ofertas de aquisição por grandes investidores internacionais. Os Clubes são obrigados a manter a maioria das suas ações nas mãos dos sócios, evitando assim o modelo inglês, no qual qualquer mega empresário com bilhões em caixa pode adquirir instituições centenárias para brincar de cartola.

No entanto, toda regra tem suas brechas. Se um determinado investidor permanecer no clube por mais de 20 anos como patrocinador, este pode adquirir o restante das ações do clube, vide o Bayer 04 Leverkusen ou VfL Wolfsburg, que pertencem respectivamente a Bayer e Wolkswagen.

Kind, que assumiu a presidência em 1997, se encontra justamente nesta brecha, podendo assim adquirir o restantes das ações do clube devido às duas décadas no cargo. O único empecilho para essa aquisição é a Jahreshauptversammlung (a assembleia geral dos sócios), órgão máximo nas instâncias internas do clube, que (em teoria) deveria aprovar tal decisão.

Na última assembleia, em abril desde ano, Martin Kind e a direção do clube já não tinham a maioria absoluta para aprovação da venda, coisa que forçou o empresário a ignorar a decisão dos sócios gerando um grande descontentamento entre os torcedores. Resultado do impasse: uma greve de silêncio em todos os jogos, de local ou visitante, dos Roten.

Os ultras junto com mais de 90 fanclubs da Curva Norte assinaram uma carta aberta questionando a falta de democracia e o desrespeito com os sócios do clube. Perante todos os jogos a torcida permanecerá calada até que a democracia seja respeitada.

A batalha pelo Hannover 96 ainda não terminou, mas a equipe em campo já vem sentido a falta de apoio da arquibancada. Mas como em toda greve, vitoriosa ou não, a luta continua.

O modelo do futebol alemão com ingressos baratos e grandes festas nas curvas só é possível com democracia dentro dos clubes. Do contrário cada vez mais empresas – como a Red Bull – serão representadas na Bundelisga ao invés de comunidades locais, representando a morte do futebol alemão como conhecemos.

Um clube de futebol não precisa de um dono, mas sim de um presidente eleito democraticamente. Se o Hannover 96 perder essa batalha, toda a Alemanha perderá junto com ele. Enjoy the silence, Herr Kind.

*economista, professor, membro da Football Supporters Europe e sócio do Hannover 96 desde 2012

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Mamma mia

As arquibancadas do mundo já tiveram dias melhores. Fato!

Mas nem sempre tudo foi festa. Além do lado lúdico, festivo e democrático dos estádios, não podemos esquecer seu lado sombrio e cruel. Neste ambiente libertino, o ser humano sempre teve espaço para revelar o seu pior instinto. Nem tudo é festa na plateia do futebol, o ódio sempre esteve presente, dissimulado no pretexto da rivalidade. Homofobia, racismo, preconceito regional e outros predicados da bestialidade humana encontram seu lugar de honra nas arquibancadas do planeta.

Na Itália, onde a rivalidade histórica e secular se apoderou do futebol, os ultras das curvas (assim é chamada a parte popular atrás dos gols) se aproveitam deste pequeno universo para promover toda a sua aversão ao inimigo regional.

A Itália que já fora o centro de um dos maiores impérios da história, transformou-se por séculos em uma colcha de retalhos. Ela fora estuprada por inúmeros invasores formando vários pequenos burgos com identidade própria. Há um famoso ditado que explica o sentimento regionalista da península: Cada pequena cidade acredita que a sua torre é maior que a do vizinho. Estamos em 2015 e nada mudou desde então. Este sentimento atemporal dos italianos sempre será a sua maior riqueza e também o maior entrave para quem sonha transformá-la em uma nação uníssona e reta.

Dentre as inúmeras rivalidades históricas existentes na velha bota, as cidades de Roma e Nápoles levaram consigo a animosidade para o futebol, mais especificamente entre os times: Roma e Napoli, no chamado “Derby del Sole”. A rivalidade consiste no confronto entre as duas maiores cidades do sul, de um lado a capital administrativa “rica” e do outro o povo napolitano conhecido por seu espírito de contra poder histórico, representado na figura da Camorra.

Neste último final de semana, o estádio olímpico recebeu mais um derby do Sol. Tensão no mais alto nível entre os tifosi e as forças policiais. Um fato importante aumentou ainda mais o perigo neste último domingo. Há um ano, um jovem torcedor do Napoli fora assassinado por Danilo De Sanctis, famoso ultra da Roma, apelidado de Gastone. O homicídio ocorreu no dia da final da Copa da Itália de 2014, em Roma, entre Napoli e Fiorentina. Ciro não resistiu aos ferimentos e morreu 50 dias depois.

No derby deste domingo, a curva sul não poupou críticas à mãe do jovem assassinado. Uma faixa foi estendida com a seguinte mensagem:

faixa

“Que coisa triste… Lucro com o funeral… livros e entrevistas”.

Os ultras da Roma acusam a mãe de Ciro de aproveitar da morte do filho para ganhar dinheiro com livros e entrevistas.

A mãe, transtornada, logo explicou que o dinheiro obtido na venda dos livros iria para fundação “Ciro vive” e seria destinado aos hospitais de todo o mundo.

Mas não parou por ai, uma faixa com o rosto da atriz e apresentadora Sandra Milo foi exposta. Uma ironia pra lá de maldosa.

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A foto da apresentadora foi uma alusão a um episódio que ficou marcado na memória da televisão italiana. Durante o programa “L’amore è una cosa meraviglosa”, de 8 de janeiro de 1990, uma telespectadora telefonou dizendo que o filho de Sandra Milo, também chamado Ciro, fora vítima de um grave acidente automobilístico. Tudo não passava de uma brincadeira, no entanto, a apresentadora ficou transtornada e abandonou o estúdio aos prantos gritando “Oddio chi parla? Oddio chi è? Chi? Ciro? Dove? Noooo! Oddio!!” (Assista o fatídico episódio no vídeo abaixo)

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