Cine #128 Fevereiros

O Central Cine Brasil desta semana, em 7 de fevereiro de 2019, trata de Fevereiros, filme que retrata a fé e a religiosidade de Maria Bethânia diante das festas de Santo Amaro, na Bahia, e o desfile (campeão) de Carnaval da Mangueira, no Rio de Janeiro. Falamos também de Festival de Berlim, dos números do cinema nacional em 2018 e das estreias da semana.

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Quando o Carnaval já chegou

 

 

Lá dos Quatro Cantos News chega a notícia: já tem folia pelas ladeiras do Sítio Histórico. Estamos ainda em setembro, mas as informações que caem pra cá, via criptografia e barulhinhos eletrônicos, é que na Marins dos Caetés e na Terra do Altos Coqueiros já é verão. Não ligue para essa besteira chamada calendário. Corra e olhe o céu. A boa nova diz que faz mais ou menos um par de semanas que a turma de preto e amarelo da Pitombeira, que na cachaça é a maior, já arma sua festa e ensaios, e essa é a senha que comunica que começou o Carnaval.

A tensão pré-Carnaval bate bem antes dos quatro dias em que Momo dá as cartas no mundo. Inclusive está nesse momento por aqui, entre o Campo Limpo e o Ibirapuera, faltando 159 para começar o momento mais esperado do ano. Depois da passagem aérea garantida, agora vem o momento de planejamento. Sim. Planilhas, metas e controle fiscal e financeiro para que tudo saia da melhor forma. Carnaval não é bagunça, maestro.

Há quem brinque e há quem leve a sério. Tem aqueles que se jogam no meio da multidão sem muitos planos. Ficam à deriva e na primeira troça que passa, seguem. Desistem dessa e correm logo para outra barca que descerá a ladeira do lado. Há também aqueles que curtem ficar parado no meio do furdunço. Vendo e sendo vistos, mas tem tanta coisa rolando que considero isso uma baita perda de tempo.

Mas os que se preparam estão nesse momento pensando em cada fantasia que irão usar. Claro que não podem se repetir. Uma por dia. Para os quatro dias. E não pode esquecer que as peças têm que combinar com as cores dos blocos que vão acompanhar. No caso de ir em dois blocos no mesmo dia, se vira para trocar de roupa no percurso entre um e outro.

Chegado o último trimestre do ano, também é necessário vestir fantasia de economista e fazer projeções em cima dos investimentos que serão feitos com o dinheiro guardado no miaeiro ou cofrinho, como chamam na parte de baixo do mapa, para saber se vai dar pra adquirir tudo que se precisa. Com um cenário econômico tão instável, várias são as dúvidas: quanto estará o quilo do gliter? Três latões continuarão sendo vendidos por dez reais? E o sucesso, quanto custará?

Pra quem mora longe da Linda Olinda e do Recife Me Carregue Pelos Braços, como no caso do crônico cronista aqui, tudo que se pode fazer é isso. Criar expectativas e morrer de ansiedade. Ai, meu ansiolítico. Inveja também tem por aqui. Imagino que meu amigo Felipe Mendes, o eterno Bolinha de Candeias, não sofra de tais males. Sua caixa de correio é na Cidade Alta e a Henrique Dias já ensaia os frevos clássicos quase em frente a sua residência, nessas noites de mormaço e pouca lua.

Outro Filipe, o Niero, ex-candeiense clássico, também perde as alças das suas sandálias Havaianas nos paralelipípedos que vão do Bar de Peneira até a finada Casa do Cachorro Preto, sempre marcando passo e trançando pernas. Ah esses pecados capitais, Paulinho. Se bem que é durante fevereiro, em 2019 já pegando março, tudo vale, inclusive colocar para fora do corpo tudo que merece indulgências futuras. Quem pode estar em Olinda e Recife, está liberado a fazer todas essas estrepolias antes mesmo de chegar o Natal. Queria? Queria. E muito.

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Se for pago, não é Carnaval

(Carnaval é uma festa colorida, mas o monocromatismo domina as festas pagas)

 

A memória não ajuda, por isso não consigo me lembrar quem era o amigo de copo. Se iniciava uma noite abafada de janeiro e estávamos encostados na porta de entrada do Bar de Sebastião, olhando o esplendor da Igreja de Santa Cruz. O pátio começava a ficar todo enfeitado para a festa mais aguardada do ano, que chegaria na entrada do mês seguinte. O companheiro, que não recordo, deu a sentença depois de um grande gole:

– Se for pago, não é Carnaval.

Essa frase deveria estar estampada em todos os anúncios de qualquer festa que faça alguma menção à folia de Momo. Pediu pulseirinha, abadá, oferece open bar, por módicos preços estratosféricos, caia fora. É uma cilada já diria um antigo personagem de TV ou mesmo uma banda de pagode dos anos 90. Carnaval, em sua essência, é uma festa democrática, mas estamos no país que finge que sabe o que é democracia.

Pagar pra ver uma banda de rock, uma dupla sertaneja, uma funkeira em um lugar climatizado com a presença de gente “diferenciada” pode ocorrer em qualquer época do ano, e não há mal nenhum nisso. Sair de casa fantasiado da coisa mais absurda que se possa imaginar sem ser julgado por ninguém só é possível durante quatro dias de um ano inteiro. O Carnaval te dar o salvo-conduto ou a licença poética de fazer coisas inconcebíveis em 361 dias. Então seria melhor aproveitar esses momentos únicos ao invés da repetição das mesmas coisas de sempre.

E é nesse período também que se deve aproveitar o pouco tempo e espaço dado para ouvir frevos, antigas marchinhas, aqueles sambas clássicos, uns bons axés. Sertanejo, funk e outras melosidades que estão na mídia maciçamente continuarão lá o tempo todo. Dê uma chance, pelo menos nesse pouco tempo, para as tradições carnavalescas, sejam elas blocos, troças, escolas ou só um grupo de amigos batendo numa lata. Anitta e Safadão chegarão até você de março até dezembro.

O Carnaval é aquele momento que você é mais um na multidão, mas também pode se destacar no meio dela. E essa a graça da coisa. No meio de milhares de pessoas a sua fantasia pode ser a mais linda, original e criativa daquele bloco. Você pode encarnar aquele personagem e viver ele durante a folia inteira. Por outro lado, trancado no seu camarote com pista vip, você será mais um dentro da uniformidade dos abadás. Pode até gastar mais dinheiro mandando customizar a sua camisa-ingresso, mas continuará dentro de uma massa humana monocromática.

A quem vá falar da questão da segurança, conforto e comodidade. Bem, eu penso que perrengues são componentes do Carnaval tal qual purpurina no corpo e sorrisos nos lábios. Estou saindo de casa para cair no passo e não para fazer compras em um shopping. Vai faltar banheiro? Vai. A cerveja vai tá quente? Vai. Vai ter empurra-empurra? Em todos os lugares. Mais repito: É Carnaval e não uma aula de ioga dentro de uma spa. Faz parte contratempos, aproveite eles e seja feliz.

Mas Carnaval, mesmo na rua, não se faz sem dinheiro. É preciso pagar, e bem, os músicos da orquestra ou bateria que estão trabalhando enquanto você cai na gandaia. Em cima disso, alguns blocos de rua caem na falácia da capitalização por meio das suas prévias. E aí repetem o modelo da camarotização. Cobram fortunas para suas festas de aquecimento que seguem a mesma lógica de pulseirinha, open bar e ambiente climatizado.

É possível levantar um dinheiro bom fazendo aquilo que os mais antigos sempre fizeram e ainda utilizando a tecnologia ao seu favor. Rifa, vaquinha, bingo, crowdfunding. As possibilidades são infintas. Quem gosta da sua agremiação, seja lá por qual motivo for, vai chegar junto e dar essa força. Tenha certeza.

Não duvido que seja possível se divertir muito gastando fortunas em poucas horas. Mas aquele sentimento de liberdade, de romper padrões e costumes, mesmo por poucos dias, isso só vai ser possível gastando a sola daquele seu tênis mais velho no asfalto, e possivelmente ele fique por lá mesmo. A certeza é que depois de passar um autêntico Carnaval na rua, você voltará para casa sabendo que custa muito pouco para ser feliz.

 

*Gil Luiz Mendes é escritor e jornalista e comando o Baião de Dois, na Central3

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Cidade de São Paulo é Série B no Carnaval

*Por André Baiano

Em 1992 a música “Baianidade Nagô”, de Evandro Rodrigues e interpretada pela Banda Mel, trazia um verso interessante que propunha um avanço sobre o Carnaval no meio do refrão.

“…Eu queria, que essa fantasia o fosse eterna…”

Essa música ganhava força ao chegar da quarta-feira de cinzas. Essa música sempre me lembra fim de carnaval.

O carnaval acabou. Quarta-feira de cinzas é o dia da reflexão e cura de ressaca. A história e a tradição são implacáveis nesse sentido. Quinta-feira também é um bom dia e se são perdoadas análises sobre a folia momesca, passou disso, corre-se o risco de já terem perdido o interesse pela “sua” história de carnaval. De fato, o ano começa e a galera já está em outra.

O desfile das campeãs no Carnaval do Rio é o último suspiro. Não o que passa na TV, mas quando a comunidade comemora mais um fim de festa.

Esse é mais ou menos o enredo dos grandes Carnavais. E quando se fala de carnaval tem o grande e o pequeno, sim. É preciso passar uma régua: Salvador, Pernambuco e Rio de Janeiro. O resto vamos chamar de série B. Nesse segundo escalão entram também as pessoas que vão passar o tal Carnaval no mato.

O Carnaval não acabou pelas bandas de São Paulo, então, estou escrevendo impressões de uma festa que não se encerrou. Talvez seja o mais duradouro da América Latina.

Logo, o Carnaval continua e eu não. Deixei as ruas por puro extremismo. Não é problema achar blocos nesse próximo fim de semana. Talvez não acabe nunca e a alegria seja eterna mesmo, porque a gente tem essa mania mesmo de confundir qualquer festa com o sagrado Carnaval.

Movido pelo pré-carnaval decidi ficar em São Paulo, e olha, não me arrependo nem um pouco. Interessante essa retomada do Carnaval de rua da capital paulista. Disputa pela cidade, portanto, ação política. É muito importante São Paulo entrar na “Rota do Carnaval”. É uma cidade que pode contribuir para a construção de uma festa verdadeiramente popular, democrática e não mercantilizada. Mas chega no sapato, sem cair nessa do prefeito que vai ter o maior carnaval do Brasil. A Santíssima Trindade já está consolidada.

Uma coisa a cidade já tem: a atmosfera da festa. Quem não se fantasia é desmoralizado com razão (foi o carnaval que eu mais me preocupei com isso), cerveja quente, transporte público que é ruim e caro se tornando uma opção inviável, o banheiro ampliado, entre outras coisas inerentes ao período momesco.

Tem bloco bom também. Meu roteiro foi mesclando bloco cheio e bloco pequeno. Gostei dos pequenos. Muito Centro e pouca Vila Madá.

Bloco pequeno não tem B.O! Se for ruim é um ruim pequeno, que vira bom. Bloco grande virou sinônimo de furada. Muitas vezes causada pela própria organização e foliões. Sonoridade era sorte, o que te fazia escolher entre disputar espaço com a banda (a outra parte prejudicada pela má qualidade do som dos trios) ou tomar barrunfo de óleo diesel pelas ventas do lado do … vamos chamar de carro de som.

A maioria dos trios bons estavam sendo ocupados por DJs. Nada contra a participação de DJ no carnaval, isso tinha que ser cortado lá atrás quando o carnaval de Salvador começou a receber a turma do David Guetta, mas o real problema é que no espaço sagrado do Carnaval seja o despejo de músicas que não fazem nenhum sentido.

Aí viram blocos sem “time”. Música acelerada o tempo todo e pouca importância para o que se acontece embaixo, não importando o ambulante que está sendo encurralado pela multidão. Nisso esses blocos vão ter que aprender com Salvador. Proporção 3 pra 1. Esse “1” é importante. É a música para apaziguar e todo mundo se encontrar, segurar a onda em locais que não comportam multidão.

Um agravante para a seleção de músicas. Pode tocar de tudo? Deve. Mas, na verdade, sabemos que é fundamental que deixemos de cantar algumas. Não vejo sentido na trinca Rihanna – Marilia Mendonça – Caetano Veloso. Qualquer aplicativo de música é mais generoso. E aqui não falo dos artistas, mas sim, da pessoa que se aproveita do nosso estado lisérgico para fazer essas estripulias corta onda.

É a cerveja quente dos amigos do prefeito para esse processo de enganação por parte desses blocos, e o povo vai junto com um “Fora,Temer” a plenos pulmões e a próxima sequência bate-estaca do DJ. Muita coisa, pouco propósito.

Vão, inclusive, não se importando com o que está em sua frente, seja um grupo de amigos parados ou um ambulante. A parada é empurrar, afinal, é o carnaval de São Paulo e paulistano gosta mesmo de mostrar sua felicidade, as vezes artificial, achando que finalmente conseguiu superar o panteão dos grandes Carnavais do Brasil. Esse complexo sempre teima em aparecer por aqui.

Ainda não é! É Série B ainda, e abre o olho porque dizem que está mais legal em Minas. Mas é uma Série B que te proporciona momentos incríveis, como tomar chuva nos arredores do Teatro Municipal ao som de uma bateria insana formada só por meninas.

De maneira torta, e como tem que ser, o paulistano vai reinventando o Carnaval, com a vantagem de uma história de ocupação do espaço público por parte da população, sendo que a festa só amplia essa disputa pela cidade, a qual vive um momento delicado do ponto de vista do seu gestor. A resistência será importante. Nenhum passo atrás. São Paulo é cidade-berço do samba. Eles perderam nessa. A galera gostou e Daniela Mercury, esperta como sempre, já sacou.

Agora é só ir afinando em todos os sentidos e curtir uma Série B com dignidade. Talvez nunca chegue ao que é Salvador, Pernambuco ou Rio de Janeiro. E nem precisa. Sem crise. O paulistano curte ser descolado.

*André Baiano é historiador, DJ, torce para o Vitória e está atrás do acarajé perfeito em terras paulistanas

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